quinta-feira, 24 de julho de 2008

A mulher, o menino e a ladroa de leite

Lembram até certas espécies de políticos, que subtraem a merenda escolar, praticamente, da boca das criancinhas...

Confesso que o tema não me é nem um pouco agradável. Aliás, eu diria que a idéia me dá até gastura. Mas acontece que, desde que Maya me lembrou dele, perguntando se era sobre isso que eu iria escrever, eu não consegui mais parar de pensar sobre o assunto.

E o que é pior: deu-me uma vontade danada de compartilhar com vocês a história que eu ouvi no domingo, lá pras bandas do antigo Engenho Mangue, no agreste pernambucano, e que me parece, no mínimo, bizarra.

Estávamos ainda à mesa do café quando Ana puxou o assunto, pedindo a Graça para me contar sobre o bicho que ela vira, outro dia, pertinho de Caíque. A criança, que tem oito meses e é o terceiro filho da secretária da minha irmã, tinha apenas alguns dias de nascido quando tudo aconteceu...

Conta a jovem, num carregado sotaque pernambucano, que, ao escutar um trinado insistente ao lado da sua cama, abriu os olhos e se deparou com a assustadora cena de uma cobra engolindo um sapo, bem embaixo do berço do menino.

Ao contrário da bicha, levantou-se sem fazer alarde e foi chamar a mãe. A senhora pegou o neto no colo, cuidadosamente, enquanto a filha foi procurar um pedaço de pau para matá-la.

Era por volta das duas da manhã quando Graça terminou de limpar o chão, que ficou com um rastro de sangue, fedido e viscoso, do quarto até a porta da frente. Terminado o serviço, foi então que a moça percebeu se tratar de uma cobra de leite.

Segundo a lenda, esse espécime de ofídio sempre aparece em lugares ermos, como sítios e fazendas, em casas que têm alguma criança no período de lactação. Dizem que ela se sente atraída pelo cheiro do colostro (forte e nutritivo soro que antecede a saída do leite materno) e vem “mamar” na mãe desavisada que, por comodidade, dorme com o peito descoberto para alimentar o filho, durante a madrugada, sem precisar levantar-se.

Sorrateiramente, o réptil percorre o colchão até chegar ao peito da mãe e sugar-lhe o leite. Para que a criança não acorde e atrapalhe a sua ação, a ladra coloca a ponta do seu rabo na boca do recém-nascido, à guisa de chupeta.

Até aqui, Graça nunca ouviu falar de alguém que tenha passado por uma situação semelhante, mas se lembra muito bem do corre-corre que foi quando a sua tia se acordou no meio da noite com uma intrusa dessas deslizando sobre a sua barriga, praticamente com a “boca na botija”.

Assustada, a mulher, que ainda estava de resguardo, gritou por ajuda e foi socorrida pelos familiares, que agarraram a “coisada” pela cabeça, com firmeza, e a mataram a tempo, antes que o pior pudesse acontecer à mãe e ao filho.

É bem verdade que esse espécime não é tido como venenoso, cuja picada seja letal para a vítima, mas cobra é cobra, e a sua visita nunca é um evento agradável.

Confesso a vocês que eu fiquei horrorizada com o relato de Graça e, não fosse a sinceridade em seus olhos ao lembrar, com temor, que sempre esquece de cobrir o próprio peito, já que Caíque ainda mama, eu diria que ela estava apenas querendo me impressionar com uma estória estapafúrdia dessas, mas muito cultuada pelas mulheres do interior.

Não fosse a terrível fobia que me atormenta desde a infância, eu juro que iria pesquisar na Internet ou em algum livro específico para ver se existe qualquer estudo científico que comprove a ação desse estranho tipo de réptil que, desconhecendo a própria natureza ou guardando o secreto desejo de ser um mamífero, rouba o alimento de recém-nascidos de uma forma absolutamente humana: com astúcia e premeditação.

Lembram até certas espécies de políticos, que subtraem a merenda escolar, praticamente, da boca das criancinhas...

Feliz por ter vencido a enorme dificuldade de falar sobre essas criaturas, no entanto, eu deixo para vós outros a incumbência dessa tarefa. Caso julguem necessário, é claro.

2 comentários:

Sandra Helena disse...

Querida "Mouca", eis (abaixo)algo que "garimpei" no Google para você. Não temas, é só folclore.
bjoks,
Serra

"Mitos Sobre Serpentes 1


“Cobra que mama”

Relato: “Uma serpente, de aproximadamente 8 metros, entra na casa de uma mulher, que deu a luz há poucos meses e ainda amamenta a criança. Essa cobra só entra de noite, enquanto a mãe dorme com a criança no colo. Com a cauda a cobra tapa a boca da criança, para que a mesma não chore, e vai a procura do seio da mãe a fim de tomar o leite. A mãe adormecida, pensa que é a criança que esta mamando e não se dá ao trabalho de de se levantar. A mãe começa a perceber que o filho está desnutrido e não sabe por que pela manhã seu filho chora de fome. Essa rotina segue por dias, até que uma noite o marido, chagando de viagem, se depara com a cena e mata a cobra a pauladas. Ao esmagar a cobra, o leite que a mesma ingeriu se espalha pelo piso, mostrando que a cobra estava a mamar a muito tempo.”

Verdade: Em primeiro lugar devemos lembrar que as cobras são répteis, ou seja, as mesmas não se alimentam do leite. Podem ser ovíparas ou vivíparas, desprovidas de glândulas mamárias, sendo assim, não amamentam seus filhotes. Seu sistema digestório não está adaptado a essa alimentação. A dentição, a lingua e a estrutura da boca das cobras não permite o ato da sucção. Por essas razões seus instintos não fazem ir a procura do leite.

As cobras possuem uma camada de tecido adiposo (gordura) entre os músculos e a pele, camada essa que serve de reserva de energia para a mesma. Essa camada é esbranquiçada, muito semelhante ao leite coalhado.

A lenda surgiu a muitos anos quando um homem ao chegar na sua casa vê uma cobra ao lado da cama de sua esposa que a pouco tempo havia dado a luz e ainda amamentava a criança. Matando a cobra com uma madeira, o pai viu se espalhando pelo açoalho a camada de gordura presente no corpo da serpente. Ao ver aquilo acredita que seja o leite bebido pela cobra, que coalhou no corpo dela. Associando esse fato a desnutrição da criança, chegou-se a conclusão de que a cobra estava bebendo o leite materno todas as noites.

Maria Moura. disse...

Parabéns, Serra!
Para quem afirma também ter fobia de cobras, você se saiu muito bem.
Eu juro que tentei, mas não consegui ir muito adiante.
Valeu pela pesquisa, amiga. Apesar da pitoresca história de Graça, no fundo nós sabiamos que a crença era improcedente, não é?
O problema é que a fobia não é um medo racional...
hehehe.
Um beijo, amora.