(Luís Antônio, 44, Jaramataia - AL / Foto: Yvette Moura)
Os vincos da face, queimada do sol; a textura da pele,
prematuramente enrugada; as mãos calejadas de empunhar diariamente a enxada; os
dentes escassos na boca, revirando um talo seco de capim; os olhos miúdos lançados
no horizonte à busca de algum sinal...
Encontrei Luís Antônio da Silva carregando dois tambores de
água vazios sobre uma carroça – puxada por um animal tão magro e desalentado
quanto ele – logo na entrada da cidade de Jaramataia, na manhã da última
quinta-feira.
O português truncado à moda camponesa, a fala mansa e pastosa
comum aos sertanejos, que eu valorizo tanto, não me impressionaram mais do que
saber a idade do nosso entrevistado, nascido no mesmo ano que eu.
O aspecto envelhecido, como se ostentasse respeitosos
sessenta e poucos anos, nada mais era do que o reflexo perverso da falta de
oportunidades e dos desafios constantes a que está submetido o homem do campo.
Logo pude constatar que a textura ressequida estampada na
pele de Luís Antônio nada mais era do que o padrão do lugar: impresso na face
das mulheres, na falta de perspectiva dos homens, no olhar absorto dos idosos, nas
paredes das casas de taipa, na copa das árvores da caatinga, e até no leito dos
rios.
“Descabriados”, a muito custo esses seguiam o seu curso,
cabisbaixos e humildes, falhando aqui e ali, enquanto os açudes e as cacimbas, não
menos majestosos, recolhiam-se a uma insignificância que não era sua.
Tal a
paisagem inóspita encontrada pela equipe de O Jornal na reportagem sobre a
longa estiagem no Sertão alagoano – escrita por Láyra Santa Rosa e fotografada
por mim –, que estampou a capa do último domingo (06).
Afora pisar com os próprios pés o solo áspero e enlameado dos
açudes, no entanto, e registrar com a própria câmera a paisagem árida da seca,
nada do que vimos pode ser considerado propriamente uma novidade ou surpresa.
Afinal, intensa ou amena, a seca é uma realidade de todos os anos para aquela
região.
Surpresa mesmo é ver só agora os gestores se mobilizando
para tentar amenizar os efeitos danosos de uma longa estiagem, e assistir ao
governo do Estado rogar a Deus que mande chuva.
Surpresa é constatar que no terceiro milênio ainda
enfrentamos problemas corriqueiros e recorrentes como esses à maneira de
principiantes.
Surpresa é descobrir que, por trás da escassez da água, do
sofrimento e da miséria dos que se encontram presos a situações como essa,
existe toda uma “indústria” dando suporte a esse estado de coisas, e muita
gente tira o seu “sustento” da desgraça alheia.
Surpresa, aliás, talvez nem seja a palavra mais adequada: faz
muito tempo que essa “dinâmica” está estabelecida nos sertões nordestinos.
E,
certamente, muitos candidatos serão eleitos, no próximo ano, com os “votos da
seca”.
Um comentário:
Um belo poema de reverência àqueles que não tiveram, nesta vida, as oportunidades de desenvolverem potencialidades intelictivas e por isso, padecem muitas vezes, à mercê do egoísmo dos que ainda não se inclinaram para o terreno da amorosidade, nos campos de atuação a que se ligam. A dor nas faces, o desgaste, a penúria extrema, os vincos que a inexorabilidade do tempo determina e as mãos calejadas pelo cabo da enxada, as mesmas que acariciam a pele sensível de uma criança... Um destino criado previamente, decerto, mas um grande campo para o desenvolvimento do altruísmo entre os homens. Que a sensibilidade dê lugar à indiferença que ainda governa o coração dos nossos gestores. Bjs
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