quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dias de sombra



 
Olhou-me com olhos súplices e balbuciou palavras soltas, de uma frase que ficou pela metade. Eu me aproximei tentando compreender o que ela dizia e tudo o que decifrei foi um resmungue solitário, que mais parecia um gemido.

- um abraço... Soltou vacilante por entre os dentes, olhos baixos, e uma expectativa inquietante pairou entre nós.

Eu lhe abri um sorriso, estendi os braços e fiz o convite para encorajá-la:

- Chegue!

Sem qualquer resistência, a amiga levantou-se e se jogou em meus braços, permitindo-se ser colhida pelo gesto carinhoso de uma irmã mais velha. Quando nos separamos, parecia estar mais segura e confortada para continuar a sua “via crucis”.

Como aí, há momentos na vida que ninguém pode fazer nada por nós além de nos ofertar um ombro amigo. As dores que carregamos, sejam de ordem moral ou física, são apenas nossas e não podem ser transplantadas para mais ninguém.

São períodos difíceis. Dias e noites que se revezam arrastados numa escuridão sem fim. São lentos, densos e tão compridos que parecem intermináveis, mas têm que ser enfrentados com confiança e coragem senão corre-se o risco de que não passem nuca mais.

São dias tão sombrios que precisam de um esforço maior de nossa parte. Dores tão profundas que exigirão remédios mais fortes do que os habituais. Momentos tão difíceis que, às vezes, será necessária uma ajuda especializada... Mas não se pode prescindir da oração e da fé.

É preciso lembrar que, do mesmo jeito que nos são comuns os flagelos íntimos, todos possuímos a capacidade de nos recompor interiormente e continuar vivendo em equilíbrio e harmonia; todos temos um potencial criador dentro de nós mesmos, e é essa força que nos impulsiona do quarto escuro das nossas angústias para o campo fértil do amor altruísta quando decidimos não sofrer mais.

O jornalista Marcel Souto Maior fala, na biografia autorizada “As Vidas de Chico Xavier”, que o médium espírita sempre indicava, a quantos o procurasse em busca de um consolo para as suas dores, a “laborterapia”.
 
Um remédio que há mais de dois mil anos é receitado pelo Cristo quando nos convida a ir à busca do “infortúnio oculto”.

Fiel seguidor de Jesus de Nazaré, Chico experimentou, ele próprio, a “benção do trabalho” como elixir salutar contra as dores da alma e os males da vida durante toda a sua existência.
 
Aos que lhe procuravam reclamando do vazio que lhes atormentava, fazendo deles criaturas tristes – a despeito dos bens materiais, da família e da saúde perfeita, que possuíam –, ele apontava o problema: - O que lhe falta é a alegria dos outros.

Às mães chorosas que lamentavam a “perda” dos filhos queridos, como aos portadores de doenças incuráveis, entre tantos outros males que afligiam os que buscavam as palavras benfeitoras do inesquecível médium de Uberaba, a receita era a mesma: o exercício do amor ao próximo em ações altruístas.
 
O trabalho como bálsamo para as nossas dores, cura para todas as angústias da alma, antídoto contra a depressão e o suicídio, e o elixir da longevidade e da alegria.

Como asseverou aquela amiga, ao cair da tarde, numa mensagem de texto: “só o trabalho, a oração e um abraço amigo aliviam esses momentos”.

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