segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Fazendo as pases com a vida

Às vezes, nos deixamos envolver de tal forma pelos problemas do mundo que nos sentimos como que extenuados ao final de um período difícil. O desânimo, a tristeza, uma nulidade de forças então, nos cercam, colocando em risco a alegria de viver.

Sentia-me assim, outro dia, quando minha irmã insistiu para irmos à praia. Relutei, a princípio, alegando cansaço, mas depois aceitei o convite sob o argumento de almoçarmos em uma barraca de Guaxuma, praia que gosto muito. Em verdade, aceitei-o mais por vislumbrar a oportunidade de curtir toda aquela preguiça deitada à beira-mar, escutando o “canto” das ondas; coisa que certamente me devolveria a energia.

Se há algo que me relaxa e acalma é o som das águas. E nada melhor para uma tarde de domingo modorrenta do que deitar em frente ao mar e ficar por ali, quarando ao sol feito bicho na grama – os olhos fechando e abrindo bem devagar –, sentindo o calor do dia, enquanto as ondas embalam a madorna e o cheiro de maresia invade as narinas.

Pois bem! Estava desse jeito quando comecei a pensar sobre as dificuldades da vida. Como estava cansada, e uma pontinha de tristeza buscava guarida em meu coração, resolvi olhar as pessoas que se divertiam ruidosas ao nosso redor. Foi então que avistei um casal de idosos brincando com a netinha de dois anos. Cada um segurava um braço da menina, enquanto ela dava pulinhos de alegria sobre as marolas, que se desmanchavam em espumas suaves e branquinhas sob seus pezinhos infantis.

Esse quadro me fez enxergar o quanto é dinâmica a nossa passagem pela terra. “A vida é como o mar!”, disse a minha irmã, que igualmente se encontrava perdida em seus pensamentos, e logo dei continuidade ao meu raciocínio:

- Ela é cheia de altos e baixos, como as ondas que vêm e vão. Já essas são como as dificuldades que surgem em nossa vida, nos capacitando para embates maiores.

Falei, apontando para o menino de cerca de onze anos que pegava “jacaré”, um pouco mais adiante. Os pais o olhavam da areia, mas deixavam-no livre para ganhar confiança e vencer por si mesmo os desafios do mar.

Mais a frente, a água pelos ombros, um homem nadava com braçadas firmes, atravessando o mar bravio. “A vida é desafiadora, mas rica.” Cometei mais uma vez, ao que Ana prontamente assentiu. “Quanto mais nós enfrentamos as dificuldades, mais nos fortalecemos para resolver os problemas que virão e, assim, nos capacitamos cada vez mais para vencer as adversidades”, concluí, observando as fases da vida ali representadas.

A menina simbolizava a infância, quando os obstáculos parecem intransponíveis e o ser depende dos cuidados alheios. O menino lembrava a juventude – época em que os desafios são instigantes e convidativos, mas exigem limites e acompanhamento. O nadador, por sua vez, representava a fase adulta, quando, enfrentando as adversidades, a criatura conhece os próprios limites e amadurece.

Já o casal de idosos mostrava a beleza da velhice. Educados na luta diária, já entendem a dinâmica da vida. Sabem que tudo passa e respeitam os próprios limites. Compreendem que cada problema traz um ensinamento, portanto, praticam a paciência. Conhecem a importância da troca e se alegram em transmitir conhecimento.

Estabelecida a metáfora do ideal da trajetória humana, silenciamos. E uma brisa suave assoprou para longe a tristeza que insistia em se instalar em mim. Ana, cheia de disposição, resolveu fazer uma caminhada e eu fui jogar frescobol com as meninas. O vigor e a alegria pareciam ter retomado o seu velho espaço dentro de mim, então decidi fazer as pazes, de uma vez por todas, com a vida. Corri para o mar e me entreguei às ondas revoltas da Guaxuma, num longo e delicioso mergulho.

2 comentários:

Anônimo disse...

muito bem Yvette, foi bom te ver

Narciso

Maria Moura. disse...

um beijo pra vc também, Nars. como diz o popular, não somos músicos, mas vamos tocando a vida.
Paz!e Bem!