terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Tirando o velho das costas...

Afeita à simplicidade, tenho os olhos treinados para detectar a riqueza que há nas manifestações mais despretensiosas. Por conta disso, acabo colhendo verdadeiras pérolas da boca de criaturas humildes, cuja beleza está exatamente na simplicidade com que são ditas...

Estava toda alegrinha, Dona Maria, quando chegou para trabalhar na manhã do dia primeiro deste ano. Ao contrário dos patrões, passara a noite na farra, lá no forró de Nildo, na rua principal do Alto do Bonito – distrito de São Benedito do Sul, que fica no agreste pernambucano –, de onde saíra às duas da manhã por insistência da filha, que, segundo ela, não se animava para nada.

- Devia ter deixado ela em casa! Queixava-se a doméstica enquanto botava a mesa do café e relatava à patroa os pormenores da festa. Por sua vontade, teria amanhecido o dia dançando e se divertindo com os amigos, como há muito não fazia, mas já se dava por satisfeita de tanto que aproveitara.

De cara amarrada, reclamando de dor de dente e algum outro mal-estar físico ou, quem sabe, até uma inquietação espiritual, a patroa escutava os relatos da secretária com certa impaciência e despeito, pois queria, ela própria, ter comparecido ao forró do líder comunitário daquela localidade, que havia convidado igualmente ela, o esposo e os filhos, mas nenhum deles se dignou a acompanhá-la à festa.

A noite foi comprida e se arrastou num lengalenga insuportável na frente da televisão, o que a deixou profundamente aborrecida e enfadada com a espera longa e improdutiva pelas doze badaladas noturnas que marcariam a passagem do ano. A espera foi tanta que a mulher acabou se atrapalhando com o horário de verão, adotado pelas redes televisivas: quando deu por si, o ano já tinha “virado”!

À distância, ouviram-se os fogos da rua, espocando à chegada do novo ano. Trazidos pelo vento, volteando as montanhas da redondeza, vez por outra era possível se ouvir os acordes da sanfona, o tilintar do triângulo, acompanhados pela zabumba, que só podiam ser lá do forró de Nildo.

Visivelmente frustrada com o desfecho infeliz de 2008, deixou-se abraçar, meio a contragosto, pela irmã, os sobrinhos e o cunhado, que parecia ter engolido uma vitrola enganchada de tanta tagarelice; deu um beijo sem graça nos filhos, que bocejavam sonolentos; e ensaiou um sorriso amarelo para o marido, que, inquieto, entrava e saia pela porta da sala, indeciso entre vestir ou não a roupa de dormir.

Para o cachorro ela nem sequer olhava, indignada, virando a cara e soltando bufas de raiva, pois achava uma falta de respeito tremenda que tivessem permitido ao animalzinho de estimação dos visitantes andar pela casa inteira.

Lá para as tantas, depois de suspirar na varanda por longo tempo mirando o infinito, provavelmente sonhando com o resfolego da sanfona, o sacolejo do triângulo e o ressoar da zabumba, decidiu ir se deitar para descansar o corpo e aquietar a mente, consciente de que só daqui a um ano seria possível consertar o disatropelo deste.

A energia acumulada e o desejo contido não lhe deixaram dormir direito. O sono foi conturbado, repleto de sonhos estranhos – uma hora festa, outra desalento – e a mulher acordou mais cansada e aborrecida do que quando se recolhera.

Com o pensamento distante, repassando a noite mal dormida, nem entendeu quando a secretária lhe disse que para melhorar do mal que lhe afligia era necessário “tirar o véio das costa”.

- Como assim, comadre Maria? Perguntou a patroa, voltando à mesa do café.

- “Pra começá o Ano Novo a gente tem que tirá o véio das costa, comade”! Repetiu a empregada com um sorriso repleto de vagas entre os dentes, lembrando, sabiamente, que é preciso se desvencilhar das impressões do passado para que o novo aconteça.

3 comentários:

EmmyLibra disse...

Um carinhoso beijo!
Tentarei me manter on line esses dias por mais tempo, pra tentar encontrá-la. Quero conversar. Não serve mais ninguém, além de você!! ;)
Ah! E quanto aos posts, vc sabe que eu sou sua fã de carteirinha, não sabe?
Se não fosse, passaria a ser agorinha mesmo!!
Mais beijos!

Jαdε Nεvεs disse...

Maminha,
Te amo muito muito, sabia??
Muito, muito, muito!!!

Beijiiiiiiiiinhos,
Te amo sempre, neguinha! ♥

Archiduque de Applecore disse...

Luego de mucho tiempo, paso por aquí a saludar... Muy bueno el texto.

Fabi