quarta-feira, 22 de julho de 2009

"Sobre Anjos e Grilos" numa noite fria...

Cheguei a me arrepender por não ter saído mais cedo quando vi a enorme fila, que descia a escadaria do Teatro Luiz Souto Dourado e dava a volta em torno do prédio da antiga estação de trem de Garanhuns, no alto da Praça Dom Moura. Caía uma chuvinha fina e nós estávamos sem sombrinha, apesar de devidamente agasalhadas para o frio gostoso, que rapidamente nos envolveu naquele início de noite...

Ainda bem que a paixão pelo teatro e pela obra de Mario Quintana não me deixou desistir ante as adversidades climáticas do último domingo, no 19º Festival de Inverno de Garanhuns. Pelo contrário! Aí era que eu ressaltava as qualidades do poeta gaúcho, declamava trechos de alguns poemas seus e envolvia as meninas com a expectativa de que, certamente, iríamos assistir a um belo espetáculo.

Quando abriram as portas e adentramos as dependências do prédio – de arquitetura inglesa do Século 19 (1887), que, desde 1971, abriga o Centro Cultural Alfredo Leite –, o ambiente nos acolheu como um abraço e, sem demora, nos acomodamos nos compridos bancos de madeira como se fôssemos passageiras do próximo trem...

A ideia combinava perfeitamente com a proposta do espetáculo gaúcho “Sobre Anjos e Grilos”, trazido pela Companhia de Solos e Bem Acompanhados, que prometia levar os espectadores a uma viagem pela vida e pela obra de Mario Quintana.

Luzes apagadas, as cortinas se abriram com a voz rouca do ator Paulo José declamando um dos versos mais conhecidos de Mario Quintana, que diz que todos deveriam fazer versos: “Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum”.

Um monólogo, com a atriz gaúcha Deborah Finocchiaro dançando e fazendo piruetas, trilha sonora de Chico Ferretti ao fundo e belíssimas imagens da artista plástica Zoravia Bettiol dispostas em telão – enquanto declamava vários poemas e textos de Quintana –, o espetáculo cria uma deliciosa dinâmica que mais parece uma conversa entre amigos, num final de tarde...

Foi como ouvir o poeta centenário (desencarnado aos 87 anos, em maio de 1994) contar a sua própria história. Dizer o que pensa sobre o mundo “louco” em que vivemos; falar sobre a importância da poesia para a alma humana; refletir sobre Deus, os caminhos que conduzem a Ele e o sentimento de religiosidade (sempre tão presente em seus poemas); e ainda dissertar sobre a vida, a morte e a imortalidade...

A segredar-nos coisas sobre si mesmo – dos sonhos da criança que foi aos espantos do velho, que não se reconhece mais na frente do espelho. Durante os 60 minutos em que permanecemos mergulhados no universo mágico da sua poesia, olhamos o mundo sob a ótica do poeta, com a alegria e a leveza de um bate-papo.

Segundo Mario, conhecer os seus poemas é como conhecê-lo intimamente. “Nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”, afirma, assumindo sempre ter achado que toda confissão “não transfigurada pela arte” é indecente.

Mario Quintana não usava de falsas modéstias: fazia da modéstia a marca da própria grandiosidade. Insatisfeito confesso, dizia que um poeta satisfeito não satisfaz, e encarava a poesia como uma amorosa luta com as palavras...

Acesas as luzes da plateia, a atriz foi aplaudida, de pé, por mais de três minutos. E eu, feliz por ter ofertado este presente a mim mesma e às minhas filhas, voltei à chuva fina e ao frio das ruas de Garanhuns pensando sobre como seria bom se todos tivessem acesso a espetáculos como este (ao preço de R$ 3,00), principalmente os jovens de hoje em dia, que buscam nos prazeres imediatos um sentido para a vida. Porque todos precisamos redescobrir a poesia da vida... E essa garotada, penso, com maior urgência.

2 comentários:

Lis disse...

Adorei participar através do seu registro desse espetáculo sobre Mário Quintana e deu até vontade ensaiar uns poeminhas rsrsrs , brncaeira , nao sou boa nisso, mas adoro ler os poetas .Concordo que os jovens precisavam buscar mais esse tipo de entretenimento , pra criar um mundo melhor e mais justo. A poesia cai na alma e engrandece o espírito.
Abraços

Anônimo disse...

Belíssimos, tanto a peça como a crônica! Beijos, mamis!