- Pôxa, irmão – lamenta o amigo, consternado –, eu soube que roubaram a sua mulher... Sinto muito.
- Não, rapaz – acrescenta o de cá, tomando as palavras ao pé da letra –, ninguém me roubou nada, não. A minha mulher é que foi assaltada.
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domingo, 18 de julho de 2010
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Na ponta da língua
Numa preguiçosa manhã de verão, um ambulante anuncia o seu produto pelas ruas da Ponta Verde. Da janela do quarto, no alto de um prédio sofisticado, um menino lhe arremeda a cantilena arrastada, lançando o desafio:
- Macaxeeeeiiiira!
- Vamo ver se a macaxeira não tá pooooodre...
- Macaxeeeeiiiira!
- Vamo ver se a macaxeira não ta pooooodre...
terça-feira, 4 de março de 2008
Paparazzi
Um casal bate papo em um canto escuro da praça. A rua está deserta e já são quase 1 hora da manhã... Do alto, a lua observa a tudo, com seu olho torto. Cá em baixo, da janela do meu quarto no quarto andar, eu observo os dois – o casal e a lua – antes de dormir.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Suicídio
Hoje eu vi um homem parado no meio de uma larga avenida, querendo atravessar. Ansioso, ele olhava de um lado a outro das duas vias, esperando a oportunidade de passar para a outra margem – os carros passando em alta velocidade por ele. Enquanto isso, tirou do bolso um maço de cigarros e começou a fumar.
Eu vi um homem atentar contra a própria integridade física duas vezes esta manhã!
Eu vi um homem atentar contra a própria integridade física duas vezes esta manhã!
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Expresso
O ambiente acolhedor; os grãos selecionados sendo ruidosamente triturados dentro da máquina singular; o cheiro da bebida quente, atrativa e sensual, tomando conta de todo o ambiente; os grupos de amigos, casais, colegas de trabalho, todos reunidos em torno de uma conversa boa – inteligente e animada conversa...
Só faltou você para compartilhar o velho e saboroso café!
Só faltou você para compartilhar o velho e saboroso café!
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Por via das dúvidas...
Estávamos assistindo a uma apresentação infantil de flauta doce, quando meu colega se lembrou de um velho ditado que escutara da mãe na infância repetidas vezes.
- Ela não podia nos ouvir tocando que dizia: - “Não toquem flauta dentro de casa, que atrai cobras.” – explicou.
- E atrai mesmo? – perguntei já preocupada, olhando para os lados.
- Não sei. – disse-me ele – Eu nunca a desobedeci...
Enderecei-lhe um sorriso amarelo, tentando demonstrar compreensão. “As mães costumam lançar mão das máximas populares para impor limites aos seus filhos”, comentei, lembrando que com a minha também era assim.
Então ficamos calados por algum tempo, mas, por via das dúvidas, sem que combinássemos nada, fomos tratando de mudar o rumo da conversa e ir nos encaminhando para longe daqueles acordes infantis.
- Ela não podia nos ouvir tocando que dizia: - “Não toquem flauta dentro de casa, que atrai cobras.” – explicou.
- E atrai mesmo? – perguntei já preocupada, olhando para os lados.
- Não sei. – disse-me ele – Eu nunca a desobedeci...
Enderecei-lhe um sorriso amarelo, tentando demonstrar compreensão. “As mães costumam lançar mão das máximas populares para impor limites aos seus filhos”, comentei, lembrando que com a minha também era assim.
Então ficamos calados por algum tempo, mas, por via das dúvidas, sem que combinássemos nada, fomos tratando de mudar o rumo da conversa e ir nos encaminhando para longe daqueles acordes infantis.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
O último vôo
Estava no chão, inerte, enquanto pessoas passavam ininterruptamente sem sequer se darem conta de que estava ali. Mas eu a vi, de imediato, assim que pousei os olhos pelos traços regulares do piso de tijolos vermelhos.
Estava morta, é verdade, mas era um dos maiores símbolos de liberdade e tinha o seu valor, apesar da estrutura fragil que apresentava.
Aproximei-me e peguei, delicadamente, a pequenina borboleta que jazia imóvel sobre o solo duro da rua principal de Jaraguá.
Guardei em uma folha de guardanapo branco, como uma homenagem à sua breve vida. Pois em algum momento o pequenino inseto deve ter ornado algum jardim e enchido de esperança alguma tarde com seu rodopiar suave em torno de alguma flor.
Estava morta, é verdade, mas era um dos maiores símbolos de liberdade e tinha o seu valor, apesar da estrutura fragil que apresentava.
Aproximei-me e peguei, delicadamente, a pequenina borboleta que jazia imóvel sobre o solo duro da rua principal de Jaraguá.
Guardei em uma folha de guardanapo branco, como uma homenagem à sua breve vida. Pois em algum momento o pequenino inseto deve ter ornado algum jardim e enchido de esperança alguma tarde com seu rodopiar suave em torno de alguma flor.
domingo, 26 de agosto de 2007
E quem vai dizer que não é?
Na necessidade de dar uma forma à nova situação, a criança olha e olha o umbigo fundo da tia grávida de sete meses - bem centralizado no meio da barriga redonda - e arrisca, pretendendo uma comunicação mais estreita com aquele que será seu futuro companheiro de brincadeiras e travessuras:
- Olha o olho do Rodrigo!
@para Jade e Rodrigo,
que entendem a vida bem além dos limites da carne...
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Plenilúnio do outono
Era cedo ainda quando ela saiu, feito sinhazinha, para passear. Com simplicidade, andou sob a vista de todos, em plena luz do dia, braços à mostra, rosto demaquilado, cara de menina, sem aparentar medo ou o pudor natural de ser vista ou de se mostrar.
Deixou para o outro dia o esplendor de estrelar mais um show lunar – redondo foco de luz em noturno palco para onde se voltarão todas as atenções dos fãs.
Mas mesmo que quisesse não conseguiria passar despercebida: como fosse um imã translúcido, atraiu todos os olhares vespertinos para si, achando a maior graça...
E foi então que assim ganhou, no outro dia, o céu de estrelas salpicado em belíssimo traje de gala, esbanjando beleza e fazendo suspirar os corações enamorados.
Foi então que percebi o quanto era bela e múltipla a lua, em seu passeio cíclico, refletindo a intensa luz solar.
Foi então que tive a ousadia de lhe beijar a testa, pegar na sua mão e seguir consigo, brincando de ser feliz no primeiro plenilúnio do outono.
Deixou para o outro dia o esplendor de estrelar mais um show lunar – redondo foco de luz em noturno palco para onde se voltarão todas as atenções dos fãs.
Mas mesmo que quisesse não conseguiria passar despercebida: como fosse um imã translúcido, atraiu todos os olhares vespertinos para si, achando a maior graça...
E foi então que assim ganhou, no outro dia, o céu de estrelas salpicado em belíssimo traje de gala, esbanjando beleza e fazendo suspirar os corações enamorados.
Foi então que percebi o quanto era bela e múltipla a lua, em seu passeio cíclico, refletindo a intensa luz solar.
Foi então que tive a ousadia de lhe beijar a testa, pegar na sua mão e seguir consigo, brincando de ser feliz no primeiro plenilúnio do outono.
domingo, 13 de maio de 2007
Despedida
Olha o amigo que se volta mais uma vez e acena antes de seguir, resoluto, o caminho adiante. Lágrimas nos olhos, ensaia ainda um sorriso que, embora triste, ficará pintado na face por alguns minutos para então ir se desfazendo feito aquarela... Criando um outro desenho com as sobras do quadro anterior... No rosto esquálido de quem fica - pálido de solidão e saudade -, desenha-se a desesperança: o peito sangra como o pôr-do-sol. Impotente diante das escolhas alheias, a moça afaga os cabelos longos, negros como a noite, e sorri mais uma vez, olhando a imagem da despedida, que se dissipa com as cores do dia. Por entre lágrimas, balbucia suas últimas palavras com um som que lhe escapa do fundo da alma, como um soluço; quase um gemido: Meu amor... Por que, meu amor?... Por que?...
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