domingo, 7 de dezembro de 2008

Páginas do tempo

Folheando velhas agendas, vasculhando gavetas esquecidas, com que surpresa encontro cartas que escrevi, mas que nunca chegaram ao seu destino; nunca foram lidas por seus verdadeiros donos porque nunca foram remetidas por mim.

São textos poéticos, em linguagem afetuosa, intercalando o relato de momentos da minha vida, que ficaram grafados para sempre nas linhas de um papel decorado, hoje, amarelecido. Palavras que tinham destino próprio, leitor específico e endereço certo, mas que nunca chegaram de fato.

Tanta coisa mudou do dia em que foram escritas até aqui! Tantos acontecimentos se sucederam em minha vida. Tantos anos se passaram... Talvez até o nome das ruas, das cidades, o Código de Endereçamento Postal daquelas localidades; talvez até as próprias pessoas tenham mudado bastante desde a época em que minhas palavras lhes foram “dirigidas”...

É estranho relê-las agora: parecem fragmentos da vida, páginas do tempo que, hoje, não fazem mais sentido.

Mas que péssimo hábito eu tinha de deixar coisas pela metade – energia retida! Não se deve deixar nada pela metade, a não ser que não valha mesmo a pena! Ainda assim, penso que as palavras devem sempre ser usadas para resolver situações mal resolvidas, pois pior do que receber um “não” é a aspereza da dúvida instalada pelo silêncio.

Hoje, vasculhando o passado, penso que muita coisa poderia ter sido diferente se eu tivesse verbalizado sempre os meus sentimentos. Passados os anos, acabei transformando alguns desses escritos em poemas e crônicas, mas ainda guardo aqueles que continuam lacrados em seus respectivos invólucros de papel envelhecido, com o nome e o endereço completos do destinatário, como a carta que eu não enviei para o Bau – amigo canhotinhense que eu não vejo há muitos anos – e a endereçada a Eunice, que se mudou para Sampa.

Agora, a correspondência mais difícil e dolorosa que eu já enviei para alguém, eu não o fiz por via aérea ou por e-mail, como nos dias atuais. Enviei-a como uma prece – longa e sentida –, em meio a lágrimas de arrependimento e saudade...

Eram meados da década de 80 quando recebi uma correspondência muito bem escrita, com uma bela caligrafia, de alguém que abria o seu coração e declarava um amor nascente. Muito jovem e imatura, fiquei encantada com a novidade que a missiva me trazia, mas, ao mesmo tempo, muito constrangida, pois não nutria o mesmo sentimento pelo amigo que me escrevera, embora lhe tivesse grande apreço. Sem saber o que dizer, nada respondi.

Deixei passar o tempo e aguardei com muita ansiedade o casamento da amiga Edivane Bactista, que nos havia convidado a ambos para sermos os seus padrinhos. Na oportunidade em que iria rever José Marcelo e formar com ele um par, pretendia reafirmar a grande estima que sentia e estreitar a nossa amizade, convidando-o para alegres tardes de domingo em minha casa, como fizemos outras vezes na dele.

Ele era uma alma maravilhosa e me fazia feliz tê-lo por perto, mas, como a vida é muito dinâmica e o futuro é um tempo abstrato que nem sempre nos é dado prever, um acontecimento inesperado mudou o rumo dos meus planos em relação ao encontro: Marcelo morreu duas semanas antes do casamento de Edivane, tragado pelas águas sedutoras da praia de Piedade, em Recife – PE.

Fiquei desolada. Sufocada com tanta coisa por ser dita e sem qualquer possibilidade, agora, de dividir com ele o que sentia. Foi então que, numa noite insone, eu recebi a feliz intuição de lhe falar sobre os meus sentimentos através de uma oração. Foi um santo remédio! E qual não foi a minha surpresa, além de grande emoção, quando, muitos anos depois, um médium espírita me descreveu o querido amigo ao meu lado durante um Atendimento Fraterno no Centro Espírita José Eusébio!

@para José Marcelo.

2 comentários:

Archiduque de Applecore disse...

Linda crónica, como todo lo que escribe usted...

Beso!!!

Fabián.

Maria Moura. disse...

vindas de você, Fabián, essas palavras têm grande valor.

obrigada!

y un beso.