quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pela última vez...

Sentimentos profundos me invadem neste instante em que me sento para escrever. O que falar neste momento de angústia em que tantos, comovidos com o acidente do Airbus 330-200 da Air France, se questionam sobre a vida e a morte?

Fechada a porta da existência, cerrados os olhos da carne, as criaturas tomam um rumo bem diferente do que haviam planejado. Dobra-se a esquina e muda-se completamente a rota pré-estabelecida, deixando os que ficam mergulhados no vazio da ausência e da pouca compreensão que se tem sobre os “mistérios” que envolvem as questões metafísicas.

Poucos são os que assimilam e decodificam os sinais do “futuro próximo” que chegam até nós, normalmente enquanto os nossos entes queridos ainda estão por aqui, a um passo das nossas mãos.

“Meu irmão nem tinha o hábito de me abraçar”, declarou um dos parentes que buscavam notícias sobre o voo A447, que desapareceu da rota na noite do último domingo, lembrando que, dessa vez, o irmão o abraçou ao se despedir. Da mesma forma, um pai comentou que dormiu mal àquela noite, pois tinha a nítida impressão de que teria sido a última vez que viria a sua filha, que morava no exterior e viera visitá-lo.

São momentos em que um lampejo de lucidez nos invade o espírito, preparando-nos, talvez, para um evento que está por vir. Ou, quem sabe, nos ofertem a oportunidade de apararmos arestas e reafirmarmos quanto nos são caras as criaturas de quem nos despedimos, sem saber, pela última vez.

Que o diga meu irmão Luís Júnior, que, na noite precedente ao desencarne do nosso pai, aceitou o meu “convite” para o beijar à testa sem saber que era a última oportunidade de manifestar o seu amor filial daquela forma. Meio tímido, osculou a fronte do genitor e lhe dirigiu um “Tchau, velho!”, repetindo o mesmo gesto com que éramos cumprimentados por papai na infância. Olhou para mim, meio encabulado, e deixou o quarto com um breve comentário de censura: “- Tu e tuas coisas!”. No outro dia, logo cedo, foi surpreendido com a minha ligação (já que fora a acompanhante daquela noite) avisando que papai havia partido.

Também não soube explicar por que sentira tanto medo de ficar sozinha com papai àquela noite, como fazia todo final de semana, há quase dois meses (por isso havia pedido ao meu irmão para ficar mais um pouquinho)...

Às vezes, a morte nos manda sinais que não conseguimos decodificar a tempo. Não para que possamos evitar o inevitável, mas para nos oportunizar as despedidas, as manifestações de afeto, a dissolução de ressentimentos...

A última lembrança que tenho do colega jornalista Álvaro Tojal (morto em um acidente automobilístico na madrugada do dia 12 de outubro de 2005), por exemplo, foi o rápido sorriso e o aceno que ele me deu quando os nossos carros se cruzaram no Centro de Maceió, no meio da tarde anterior ao acidente. Aquela imagem ficou voltando à minha mente, em câmara lenta, por um bom tempo...

A morte também sinaliza para os que vão embarcar no “próximo voo”, embora pouquíssimos lhe registrem o aviso. Quem não se lembra do vídeo em que um dos “mamonas” confidencia ao amigo cabeleireiro – um tanto quanto incomodado – que havia sonhado, na noite anterior, com a queda do jatinho que conduzia o grupo aos shows?

Em momentos como agora é que nos permitimos pensar mais seriamente sobre a brevidade da nossa passagem pela Terra e sobre o que nos cabe realizar aqui. Ao assistir ao sofrimento alheio ante o “inesperado” fenômeno da morte, somos remetidos, automaticamente, às nossas relações afetivas e sociais, e a consciência nos cobra mais assiduidade e comprometimento para com os nossos afetos.

Nessas horas é que nos damos conta de que não há espaço/tempo mais precioso do que o aqui/agora...

2 comentários:

Daniel Japiassú disse...

Muito bom Yvette!
Sua última frase me fez refletir!

joabe disse...

por que vc nu é mais uma seguidora de meu blog....... eu sou do seu!!!!!
xau
bjo
http://sementesdeevangelizacao.blogspot.com