quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um conto de primavera (ou A canção das flores)

(foto: Yvette Moura)

Então, fica combinado assim: se doer, eu grito, está bem? Até lá, se acontecer, nós vamos permitindo que o amor ocupe o seu lugar, que apareça e tome forma, enfim. Mas permitas que eu te peça ainda uma coisa: Não andes para trás! Pois isso é o que machuca. A cada passo que deres, a cada gesto teu, seja firme a tua atitude: senhor da tua vontade! E eu te dispensarei, acredites, a candura toda do meu coração...
Mas não venhas vacilante; isso não! Não sejas indeciso, temerário nem frágil em demasia. Seja o teu querer firme e constante: a construção perene do futuro ditoso que almejas para ti. Acredites! Aprendas a construir por tu mesmo, pedra por pedra, a própria caminhada. Como diz Joanna, tu és a única pessoa com quem poderás contar do início até o fim. Quem sabe não é esta a lição que te falta aprender na novela, que chega ao seu desfecho?
Pois não cabe o medo onde o amor se apresenta. Não cabem a culpa nem a mágoa pendentes. Não cabem dissensões, brigas, desrespeito... Também não há mais espaço para sonhos tolos em nossa vida; daqueles que só nos levarão a caminhos ermos, ainda mais distantes da nossa verdadeira essência. Alma gêmea... Lembra quando te chamei assim? Nada mudou.
Não vês que logo, logo, o sol se põe? E como nos encontrará a noite da vida se não nos permitirmos a olhar o céu, lado a lado, e vislumbrar as estrelas fulgurantes, que nos dão lições de eternidade? Bem diferente daquele anuro que pensava só existir uma estrela no espaço infinito por não se permitir sair do buraco, que o protegia do desconhecido. Sentindo-se seguro ali, mal sabia ele que a cova lhe estreitava a visão e o aprisionava tão somente...
O amor é o sentimento mais sublime que pode existir entre um homem e uma mulher. Mas quando ele nasce de um encontro de almas; quando brota de uma amizade sincera entre seres que se reconhecem e se aceitam. Quando desperta de um querer constante e desinteressado, em que o mais importante é a felicidade que a presença de um provoca no outro.
Mas não penses que a vida é feita de quimeras porque ela não é! Às vezes, tudo fica difícil mesmo: o céu se cobre de chumbo e o ar, rarefeito, parece sufocar. Então olhamos em volta e tudo o que enxergamos é uma noite densa querendo se instalar. É aí que a companhia dos seres que nos amam faz toda a diferença, e segurar a mão do ente amado pode ser a luz que faltava na difícil travessia dos nossos desertos...
Nessa primavera, amigo, que hoje se inicia convidando ao reflorescimento e à renovação, permitas que eu te fale um pouco mais amiúde sobre mim. Agora e definitivamente, eu escolhi apostar nas flores e fazer da minha vida um belo jardim. E, embora não me esqueça que elas têm espinhos, tenho me dedicado, resoluta e tenazmente, a revolver a terra, retirar o lixo, arrancar as ervas daninhas, adubar o solo e cultivar Beneditas, Onze Horas, Margaridas à beira dessa longa estrada que abriga os meus pés. Mesmo com todos os riscos e desafios que o caminho possa oferecer...
Embora o pavor que me causam e a repugnância, suportarei até a presença das lagartas, a mordiscar as folhas, por vislumbrar o colorido das borboletas que delas há de surgir. E tudo estará completo em mim...
Porque hoje eu enxergo com mais clareza: ah, sim, o amor me escolheu. E eu não fugirei mais dele; nunca mais! Quero olhá-lo de frente e ter a coragem de suportar todo o seu esplendor. Quero pegar a sua mão e seguir adiante, firme e forte, em sua companhia. E, quando o céu escurecer e os meus pés se tingirem de sangue ante a aspereza do solo, eu seguirei confiante – mão na sua mão –, cantando a canção da primavera juntos, ele e eu, até o fim: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, quero ver brotar o perdão onde a gente plantou...”. Juntos outra vez!

2 comentários:

André Falcão de Melo disse...

Lindo! Profundo! Preciso! Corajoso! Lucido! Poetico! Pujante! Emocionante... Parabens, Yvette Moura! Parabens...

P.S.: Releve a falta de acentos: escrevo do celular, de onde nao sei como inseri-los.

Maria Moura. disse...

caramba,
com tantos adjetivos vc me deixou sem palavras. rsss
obrigada, André.
muito obrigada.
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namastê!
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MM.