quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Brincando de gente grande

(foto: Yvette Moura)

Em meio a uma tarde modorrenta, nessas merecidas férias de verão, senti-me especialmente atraída por pequeno volume, próximo à porta, quando chegava à sala de estar para falar com Jade. 

Dobrado em quatro partes, na frente estava escrito apenas o número do apartamento. A letra irregular denunciava um aprendiz da língua portuguesa... O que seria?

Abaixei-me e colhi com a destra o que parecia um bilhete colocado por debaixo da porta. Abri-o vagarosamente, curtindo a gostosa sensação de um mistério que estava prestes a ser esclarecido – coisas da criança, em mim, que eu insisto em não deixar morrer.

Então fui lendo cada palavra, escrita em letra de forma, desvendando uma mensagem inusitada: “Convidamos você para vir ao 7º andar para uma locadora de DVDs infantis e adultos. Preço: R$ 1,00 por dia”.

O bilhetinho despretensioso ainda agradecia a nossa atenção, sugeria uma ligação via interfone para maiores informações e assinava com um desenho singelo de uma carinha sorridente e olhos sonhadores: “Gabriel e Maria Clara”.

A iniciativa dos pequenos vizinhos, crianças com idade entre onze e nove anos, encheu de ternura o meu coração e o de Jade. 

Minha filha lembrou-se de imediato das brincadeiras da infância, quando, juntamente com as irmãs Maya e Luana, pretendia de alguma forma movimentar as férias escolares e, se possível, “ganhar um dinheirinho”.

Pensando em prestigiar os pequenos empreendedores do nosso prédio, prometeu a si mesma convidar os amigos para aderir à idéia e se tornarem clientes, lembrando que, “na sua época” (cerca de dez anos atrás), a “Estrela Locvideo” emprestava um acervo de fitas em VHS ao preço singelo de R$ 0,50.

Em Canhotinho, quando se juntavam à prima Beatriz e às amigas Teresa, Vanessa, Érica e Natália, a farra era ainda maior. Lembro do verão em que resolveram “comercializar” flores numa banquinha improvisada na frente da casa de papai. 

Pequenos ramalhetes de Ixora Chinesa, retiradas do jardim de mamãe, eram oferecidos aos transeuntes, que achavam a maior graça.

Embora não tenham conseguido persuadir ninguém a comprar as suas flores, a falta de sucesso nos negócios não abalou as pequenas floristas. 

Depois de algum tempo, guardaram o banquinho e foram em busca de outra atividade, na gostosa brincadeira de “imitar” os pais.

De longe, eu apenas observava a folia das meninas, vendo nelas uma saudável preparação para o futuro. Mais tarde, aprenderiam que é preciso se dedicar muito até se tornar especialista em alguma coisa para ganhar a vida digna e honestamente.

Mas, embora o mercado de trabalho na vida adulta seja muito competitivo, tenho orientado repetidas vezes as minhas filhas a fazerem o que realmente gostam. 

Pois não há nada melhor do que unir labor e prazer, e sempre haverá espaço para quem é criativo.

Para Gabriel e Maria Clara, os meus parabéns. Por esses dias iremos conhecer os seus DVDs e, se realmente forem bons, como é de praxe no mundo dos adultos, vamos indicar aos amigos.


@para Jade, pela sugestão do tema. 
mas também para Maya, Luana, Bia, Vanessa, Érica, Natália, Gabriel e Maria Clara, 
com a torcida para que nunca deixem morrer a criança que lhes habita...

5 comentários:

Anônimo disse...

Que lindo, não seja mão de vaca e loque bastantate viu?
Um abração!
Jacqueline Marlene

Anônimo disse...

Que foooofo!!!

Renata Braga.

Anônimo disse...

eu tmb era "empreendedora" quando era criança, mto divertido! heheh

Bruna Bertolino

Luana Falcão disse...

Que saudades da minha infância de Sandy&Júnior, ser vendedora, catar pedrinhas no açude de São Benedito e vestir as roupas de francisquinha! Ettinha, esse post trouxe tantas lembranças boas, que senti até o cheirinho de canhotinho... Um cheirinho de mato misturado com a madeira dos móveis e lá no fundo no quarto de vovô Luís um cheiro de PAPEL! Hahahahaha! Muita nostalgia.

Amo vocês.

Maria Moura. disse...

meu amor (Luluka),
agora foste tu quem me fez chorar de emoção, saudade, e alegria; muita alegria por ter te proporcionado essas "vivências" todas, preenchendo de mais poesia a tua infância.
saiba que sempre foste, e serás, muito, muito amada por nós. o teu vovô Luís, por exemplo, vivia me pedindo para te levar lá.
um beijo enooooorrme, minha lagartinha cheia de idéias!!!
kkkkkkkkkkkkkkkk...

para sempre tua Ettinha.