quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Pedindo parada...



Talvez seja a última da série...

Então, desde já afirmo que tive enorme prazer em ser a “porta-voz” dos usuários de transporte coletivo urbano de Maceió e agradeço as palavras de incentivo, apoio e até de gratidão que recebi desde que teci os primeiros comentários aqui.

Mergulhei nesse universo com vontade, e, desde o primeiro instante, mantive os olhos abertos para tudo que está contido nele. De forma poética, em tom de crítica ou fazendo graça, procurei explorar situações corriqueiras desse serviço tão deficitário quão essencial para o cidadão brasileiro – senhoras e senhores respeitáveis, que lutam para sobreviver dignamente, e pagam os seus impostos como os demais, e, como todo mundo, merecem respeito.

Falei sobre o caos no trânsito e o desejo de tirar a bicicleta da garagem, até me conscientizar de que não havia condições estruturais para isso, aqui em Maceió, nem segurança pública que nos permita transitar livremente sem correr riscos; discorri sobre os buracos das vias, as intermináveis obras de saneamento, os solavancos e o barulho característico dos coletivos e a impressionante desconfiança dos passageiros, que, assustados com a onda de assaltos, mal se comunicam nos pontos de ônibus; abordei a questão das pequenas gentilezas – que deveriam ser aprendidas em casa para poder se levar à praça, ao ônibus, ao trânsito...

Falei sobre a demora dos coletivos, as longas esperas nos abrigos (que não protegem do sol nem da chuva) e o monte de manias e cacoetes, que acabam sendo criados pelos usuários, cansados de problemas que persistem há anos.

Ilustrei minhas crônicas com personagens cuja lembrança ainda me emociona e, também, com figuras engraçadíssimas, como o homem que saltitava sobre o chão batido e fazia mugangas com o rosto enquanto esperava o ônibus; o cobrador de sobrancelhas grossas e pálpebras pesadas, entorpecido por um sono incontrolável; e o homem corpulento e silencioso, que acompanhava, com olhos de carneiro, a minha chegada até a linha de sombra atrás do poste, num determinado ponto da Avenida Jatiúca.

Mas esta série não estaria completa (embora o assunto me pareça inesgotável) se eu não falasse sobre a fragilidade dos idosos e das crianças ante a desatenção e a grosseria de alguns PÉSSIMOS motoristas e cobradores aborrecidos. Eu não sei se é o cansaço (porque não deve ser fácil rodar pela cidade o dia todo, carregando gente de todo tipo de educação e humor, e ainda correndo o risco de, a qualquer momento, ser agredido por um jovem ensandecido, de arma em punho, que adentre ao coletivo exigindo dinheiro e valores), ou a insatisfação com o salário, algum problema pessoal ou a completa indiferença para com o semelhante, mas tem motorista que dirige como se estivesse com raiva.

Intolerante e irascível, joga nos passageiros toda frustração que carrega dentro de si. Trabalha como se transportasse animais ou levasse carga ignóbil, pouco importando se, a cada freada brusca, caia um estatelado aos seus pés.

Outro dia, dei passagem a uma senhora com medo de que ela se desequilibrasse ao subir no ônibus, porque o motorista não parava de pressionar o acelerador, ameaçando a todo instante “arrancar”, enquanto a pobre tentava galgar o primeiro degrau.

Também assisti a muitos, com os braços debilmente erguidos, perder o tão esperado coletivo por que o motorista nem se dignou a parar.

Isso sem falar nas mães com crianças pequenas, que só faltam esmagar os filhos para transpor a catraca, enquanto o cobrador observa impassível. Parecem não ter esposa, mãe, filhos, que podem sofrer as mesmas agressões na mão de um colega seu; ou nunca pararam para pensar que o futuro também chegará para eles...

Bom, por ora eu encerro aqui esse assunto, mas insisto para que continuemos refletindo sobre ele: será que não existe forma mais fraterna de nos tratarmos mutuamente?

2 comentários:

Kelly disse...

Li atenta esse texto. Já havia lido outro da série. Mas acredite, Yvette, essas reflexões fazem parte do monólogo interior de muita gente que habita os coletivos. Ou que como eu e você, estão nessa passagem de aprendizado pelo nosso querido Planeta. Gentileza, gera gentileza, então vamos tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. É tão simples. Que seu blog possa ajudar a acordar mais e mais consciências, para a importância do amor ao próximo.

Parabés pelo serviço prestado. Que mais pessoas sigam o seu exemplo.

Maria Moura. disse...

ao chegar no jornal, hoje, correu o colega Flávio, da Circulação, atrás de mim:
- Yvette! - disse ainda ofegante. Li o seu texto e achei muito bom. Mas me diga uma coisa: você não vai parar de escrever sobre este assunto não, não é?
- Não. - respondi. Farei um intervalo, este mês, mas eventualmente falarei voltarei ao assunto. - afirmei para não frustrar o colega, que tanto se identificou com esta série.
então ele abriu um sorriso, com brilho novo no olhar, e fez o arremate:
- Ah, bom.
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não é maravilhoso saber que tudo que escrevi sobre os coletivos serviu como uma espécie de catarse para muitos que leram?
sim, Kelly. tomara que este blog ajude a construir um mundo melhor!
bjo.