Estendi os braços para o alto e segurei bem firme o mural da
janela. Suportando o peso do meu corpo, puxei-o mais para cima enlaçando a
parede com a minha perna direita até ficar confortável e me sentir segura.
Esforcei-me um pouco mais até alcançar finalmente o passado e tocar com as mãos
o que ficara perdido, lá atrás.
Ali estavam eles, os gêmeos, sentados lado a lado no parapeito
da janela. Os seus corpinhos brancos, a voz infantil falando coisas da própria
idade, enquanto eu tateava com os dedos o tempo perdido…
Apertei os olhos contra o sol e toquei a ponta dos dedos nos
seus bracinhos finos, as mãozinhas buliçosas. Afaguei os cabelos fartos,
pretinhos... Senti a textura da pele, a temperatura da vida escorrendo por
dentro de seus corpinhos miúdos, o frescor dos primeiros anos... Até ser
despertada por grossas lágrimas, fluidas e quentes, escorrendo pela minha face e
me trazendo de volta a um futuro imprevisto.
Os filhos que eu não tive o prazer de acalentar, os corpinhos
frágeis que eu não agasalhei nos braços nem protegi do frio e dos males do
mundo, as vidas desmembradas da minha própria vida – a prole tão sonhada –, eu
os gerei todos no ventre da alma e descobri os seus olhinhos do sono profundo em
que se encontravam, enchendo-lhes de vida com o canto materno, que eu nunca
entoei...
Os filhos que eu perdi, ainda os tenho comigo, guardados in
vitro de forma embrionária, nascendo em marcha ré, até que se dissolvam
entre os meus órgãos e se diluam um a um pelas minhas veias, escorrendo junto ao
meu sangue – seiva da vida – para onde não deveriam nunca ter saído.
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