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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Diálogo Insólito sobre IR

(foto: Leo Drumond/Ag. Nitro)

- Mãe, tu declara imposto de renda? Perguntou a caçula ao assistir a uma reportagem sobre o último dia para declaração do imposto mais temido da população.
- Sim, filha. Responde a mãe, entretida com os afazeres domésticos.
- E tu já declarasse o teu? Insiste a pequena em assunto de "gente grande".
- Sim, filha.
- E eu preciso declarar?
- Caro que não, meu amor! responde, achando graça daquela indagação.
- Mas eu vou precisar declarar quando tiver trabalhando? Segue a menina no tema, com o seu linguajar infantil.
- Vai, sim, minha filha.
- Então tu faz a minha declaração? Arriscou, na tentativa de garantir uma preocupação a menos no futuro.
- Não.
- Ôxe! Mas, por que não? Quis logo saber, entre a surpresa e indignação.
- Porque eu não sei fazer, filha. Quem faz a minha é a sua tia, que é contadora.

Parou, pensou um pouco, e trouxe a solução rapidinho para o futuro que parecia incerto:

- Ah, então, eu já sei quem vai fazer a minha declaração de imposto de renda.
- Quem, meu amor?
- É a minha irmã, que tá estudando Contabilidade!

E ambas sorriem com o desfecho da conversa.

Moral da história:

Não importam as voltas que a vida dá, ao longo da existência; algumas histórias sempre tendem a se repetir.

@para as minhas maricotas e lulus...

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Acalorada

Andava pra lá e pra cá travando longos diálogos com o seu amigo particular. Falava dos seus calores, das suas ansiedades, e partilhava todas as horas em casa com o companheiro inseparável. Se estudava no quarto, o amigo estava lá; se assistia à TV, carregava-o também para a sala; e na hora de dormir, deixava-se embalar pelo seu doce canto sussurrado. O banheiro era o único lugar aonde o amigo não lhe acompanhava. Também, com a água fresquinha a lhe escorrer pelo corpo, que serventia poderia ter o assopro do ventilador?

@ para Maya, em 08/04/14.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Os gêmeos

 
Estendi os braços para o alto e segurei bem firme o mural da janela. Suportando o peso do meu corpo, puxei-o mais para cima enlaçando a parede com a minha perna direita até ficar confortável e me sentir segura. Esforcei-me um pouco mais até alcançar finalmente o passado e tocar com as mãos o que ficara perdido, lá atrás.
Ali estavam eles, os gêmeos, sentados lado a lado no parapeito da janela. Os seus corpinhos brancos, a voz infantil falando coisas da própria idade, enquanto eu tateava com os dedos o tempo perdido…
Apertei os olhos contra o sol e toquei a ponta dos dedos nos seus bracinhos finos, as mãozinhas buliçosas. Afaguei os cabelos fartos, pretinhos... Senti a textura da pele, a temperatura da vida escorrendo por dentro de seus corpinhos miúdos, o frescor dos primeiros anos... Até ser despertada por grossas lágrimas, fluidas e quentes, escorrendo pela minha face e me trazendo de volta a um futuro imprevisto.
Os filhos que eu não tive o prazer de acalentar, os corpinhos frágeis que eu não agasalhei nos braços nem protegi do frio e dos males do mundo, as vidas desmembradas da minha própria vida – a prole tão sonhada –, eu os gerei todos no ventre da alma e descobri os seus olhinhos do sono profundo em que se encontravam, enchendo-lhes de vida com o canto materno, que eu nunca entoei...
Os filhos que eu perdi, ainda os tenho comigo, guardados in vitro de forma embrionária, nascendo em marcha ré, até que se dissolvam entre os meus órgãos e se diluam um a um pelas minhas veias, escorrendo junto ao meu sangue – seiva da vida – para onde não deveriam nunca ter saído.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Maturidade


- Há um vago imenso em minha alma! Disse, certa vez, uma jovem bela e triste. E eu vi o deserto se abrir em seus olhos, rasos d'água... Então repeti as palavras que escutei de um velho sábio, anos atrás: - O ser solidário jamais será solitário! A moça baixou os olhos e seguiu o seu caminho ainda mais abatida e pálida. Foi aí que eu compreendi que ela ainda não estava pronta para se doar. Por enquanto, tudo o que sabia era "desejar".

*MORAL DA HISTÓRIA*
Na escalada evolutiva do espírito, a criança reclama; o jovem pede; o adulto faz; o velho compartilha.

sábado, 13 de agosto de 2011

Platônico



Fechados, os olhos se apertam ainda mais com os apelos da filha:
- Mãe, tá na hora!
Involuntariamente, lembra-se dos primeiros anos na escola, como se vivesse um sonho...
- Escrevam um bilhetinho para alguém que vocês gostam muito. Diz a professora para a turma expectante.
Olha para o caderno aberto - o desafio da folha em branco -, ajeita o lápis entre os dedos, certifica-se da borracha no topo, e arrisca:

“Querida cama,
Já estou com saudade.
Quando nos veremos de novo?
Te amo!”

domingo, 17 de outubro de 2010

Enfado

queria que fosse diferente? sabe que eu nem sei! tudo que sei é que já é muito tarde e eu me enfado com quase tudo.
- é tarde, amor, é tarde. pra dizer que te amo; que também sinto a tua falta; e que o teu lugar ninguém nunca ocupou.
- mas agora é tarde. é tarde...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sem adornos

(foto: Yvette Moura)

Olhou-a com olhos gulosos, com se perscrutasse cada milímetro das suas generosas curvas. Depois da alguns minutos de reconhecimento do terreno, e sem encontrar qualquer ponto específico no qual a sua cobiça pudesse simplesmente repousar, lançou-lhe a questão que parecia crucial para o futuro de suas vidas:

- Você não usa anéis?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Café sem açúcar

(foto: Yvette Moura)

Antes, quando eu tomava café logo depois do almoço, você fazia parte da minha pequena lista de vícios – tão intensos quanto perdoáveis: sempre comedida em questão de prazeres... Após a refeição, enchia a xícara de porcelana branca até a borda com o pretinho fumegante e retomava o trabalho. Mas nunca sem, antes, gastar uns ricos minutinhos falando ao telefone contigo, pro coração ficar em paz... Agora, uns bons anos a mais de experiência e muitas decepções, estou ainda mais cautelosa e tenho cuidado um pouco mais de mim: estou tomando chá após a refeição do meio-dia, ao invés de café. Quanto ao papinho regular com o meu “mais melhor amigo”, tenho optado pelo o silêncio.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Na real

Inspirada pelos contos de fada, que ouvia todas as noites antes de dormir, a menininha de 3 anos não titubeou quando recebeu da tia um enorme pirulito redondo, feito de açúcar colorido:
- É para sempre, titia? Perguntou, serelepe, vislumbrando o que lhe parecia ser a felicidade eterna.
Mas, sem entender o espírito da coisa, a tia cortou logo o "barato" de Alice:
- Não, meu amor. É só até acabar o pirulito...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Conversa afiada

(foto: Yvette Moura)

O bate-papo corria animado quando um diálogo paralelo chamou a atenção dos adultos:
- Pra mim, morar junto é casar, minha filha! Dizia a mais velha, com ar professoral.
- Não, senhora! Morar junto não é o mesmo que casar, não. Arriscou a caçula, sem se deixar intimidar pela irmã.
E a discussão continuou afiada até que a primeira arrematou e deixou a pequinininha sem argumentos:
- É sim, querida! Mas só se for todo dia.
???

domingo, 18 de outubro de 2009

Distração...

- Tá fechado! Gritou a pequena de apenas cinco anos, escancarando as pernas de um canto a outro na base do escorrego, para evitar que o coleguinha subisse “ao contrário” no brinquedo público.

O que ela não sabia é que aquele gesto mostrava muito mais do que a sua intolerância em dividir aquele brinquedo com a outra criança.

Intimidado, ao ver o lance da menina - que usava saia jeans e uma calcinha branca por baixo -, o recém chegado deu meia volta e buscou os degraus para subir no escorrego.

Pelo jeito, no grito ou na raça, a ameaça de Isa realmente funcionou!...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Na hora de dormir...

(foto: Yvette Moura)

- Mãe, ditongo ou hiato? Indaga a menina após reclamar de uma dor de barriga.

- Heim? Pergunta a mãe, distraída em sua leitura noturna.

- Ditongo ou hiato?

- Ditongo. Responde, sem dar muita atenção.

-Eu estou com a barriga doida.

Surpresa, a mulher interrompe a leitura e olha espantada para a menina, sem entender propriamente o seu raciocínio. E arrisca:

- E se fosse hiato?

- Eu estou com a barriga doída!!!



@para Maya Neves - companheira impagável desses diálogos insólitos, tão engraçados quanto criativos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Maya

(foto: Yvette Moura)

Escolhi à dedo o teu semblante calmo no meio da multidão. Avistei o teu sorriso, como quem hasteia a bandeira da pátria no próprio coração. Mas como te enxerguei por dentro, antes da silhueta, acabei não decorando os traços do teu rosto nem o som da tua voz... Aguardei, aguardei, até compreender que o futuro era absolutamente improvável para nós. Então fechei os olhos, abri os braços num gesto simbólico e me perdi de ti, no meio da multidão.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Solidão

Acho que estou me acostumando, realmente, a uma vida solitária...
Quando ela chega – como se tivéssemos um encontro marcado –, bate solenemente em meu ombro e avisa:
- Estou aqui.
E eu, afeita que sou a uma boa companhia, finjo estar revendo uma velha amiga e convido:
- Sente-se um pouco. Vamos tomar um café!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Assim, assim...

Sem surpresas nem sobressaltos, o coração segue batendo sem grandes novidades. A brisa passa, a vida corre leve e os compromissos vão empurrando cada vez mais para longe as férias de verão; o dia acaba, a noite chega e ainda me sobra tempo para ser feliz...
O ruim é que essa vida besta vai deixando a gente assim sem muita inspiração!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sem fim

- Vem comigo! Dá-me a tua mão, acompanha os meus passos e sigamos juntos até o sol se pôr. Mas, antes, espera! Olha além! Vês o horizonte? Ali é o limite para o nosso amor.

- Mas, à medida que andamos, o horizonte se afasta igualmente de nós. Nunca conseguiremos chegar até lá!

- Então caminhemos juntos noite adentro, porque o infinito é o limite para nós dois.

Firmado o compromisso, entrelaçaram os dedos suavemente e caminharam incansáveis, lado a lado, os dois amantes. Veio a noite fria e a chuva caiu durante madrugada, depois enfrentaram sol intenso e fortes tempestades de vento e areia, mas se mantiveram firmes. Porque firme era o propósito de seguirem juntos até o “fim”.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O despertar

Naquele dia, fiz a noite dormir no meu colo, declamando ao seu ouvido todos os poemas que lhe dediquei. Mas como insistisse em manter-se distante e fria como um quarto escuro, eu me entreguei aos braços da manhã e recebi todas as cores do alvorecer como se fossem presentes.

terça-feira, 18 de março de 2008

Relicário


Guardei com tanto cuidado que quase não me lembrava mais de onde é que eu havia colocado o amor que sinto por ti. Procurei, procurei, mas nada. Sabe onde é que fui encontrá-lo, um bom tempo depois? Num canto bem escondido por detrás de alguns afetos, todo embrulhadinho, dentro do meu coração.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Esconde-esconde

O amigo lhe ofereceu um buquê de sonhos contando pontinhos luminosos lá nas anáguas do céu. Mas ela, cansada de vê-lo plantar sorrisos nos corações em flor de outras raparigas, deu de ombros. Preferiu ir buscar a lua, que brincava de esconde-esconde lá pras bandas do Japão.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Cindy

Nunca foi princesa, mas vestiu a fantasia e ainda hoje espera o príncipe encantado surgir em um belo cavalo, saído da figura de um sapo. Mas como a vida real não é um conto de fadas, o máximo que lhe apareceu foram anuros grotescos e mal-amanhados, arrotando moscas e saltando de quatro, apagando por completa a esperança de um encantado. Revoltada com a sorte malsã, vendeu as vestes principescas para um brechó decadente e foi batalhar, pelos bares da orla, uma vaga de mulher da vida.