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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ao cair da tarde...




(foto: Yvette Moura)

Quando eu for embora deste mundo, quero seguir inteira. Não se assuste, portanto, se eu partir no final do ano; próximo ao meu aniversário; no silêncio da noite; quando tudo parecer ‘em paz’: gosto de fechar ciclos. Talvez não haja tempo para conversas, despedidas, abraços... Mas não se impressione com isso! Faça alguma coisa em minha homenagem: uma lembrança singela; um ato de caridade... E sorria, na certeza de que ainda estarei a cantar. Pois quando eu for embora, não quero saber de amarras, apegos, nem situações mal resolvidas. Quero partir leve e feliz, como uma criança que deixa a comodidade do lar simplesmente para brincar no parque, ao cair da tarde.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Flor de Primavera

E eu, que nasci no Verão, nada entendia do reflorescimento da flora e da fauna nem de temperaturas suaves, de brisas perfumadas ou jardins cobertos de cores, trêmulos de borboletas.

Até te receber, tudo o que conhecia eram temperaturas fortes, chuvas torrenciais e calores intensos; sabia só das mangueiras carregadas, com seus frutos suculentos e carnudos a penderem dos galhos; também das baforadas quentes da estação, amenizadas pelo sumo travoso dos cajus, amarelando os quintais e colhidos com as mãos...

Aliás, eu nem conhecia os invernos! Apenas o prolongamento dos dias, cada vez mais longos e claros, e os sussurros dos outonos – tempo de adeuses e folhas caídas, tapetando a poeira das estradas, sepultando amores infantis; tempo de apartes e saudades, após as férias mais compridas do ano e os ruidosos veraneios em praias balneáveis...

Não, não. Eu sequer podia imaginar como se processava o sair do casulo, o acordar de um sono profundo, o começar de novo de um ente querido que acaba de chegar ao mundo. Aliás, eu nem suspeitava o que havia após os invernos!

Até a tua chegada, até te pegar nos braços e te ninar no colo, até olhar a tua face risonha e rosada, como flor de romã desabrochando em plena temporada, eu nada conhecia da beleza das flores, da fluidez dos dias, do pintalgar dos jardins primaveris...

Eu pouco sabia do amor, meu bem, antes de ti. E te sou muito grata porque me ensinas com doçura e benevolência.

Brincar de mãe e filha, instruir e aprender, tudo se tornou mais fácil, então, desde que te concebi. Desde que chegaste, espalhando sorrisos e abraços, a vida se tornou mais leve em mim. E eu fui ficando mais tranquila e serena com o tempo, plenamente feliz.

@ para Maya, como um presente...


sábado, 31 de agosto de 2013

Lágrimas

A vida é repleta de lágrimas.
Lágrimas de dor, de medo, de angústia, de ausência, de carência, de saudade...
Lágrimas por amor, pela falta de amor, por perda, pelos ossos do ofício, por sacrifício...
Lágrimas de alegria, compaixão ou graça; lágrimas motivadas pela solidariedade; lágrimas... 
Pela vida, lágrimas. De gratidão!
@foto: Yvette Moura

sexta-feira, 8 de março de 2013

Umbilical


Eles dão trabalho. Demandam tempo. Exigem atenção, cuidados especiais, afeto, dedicação, paciência... E nos modificam profundamente. Até chegarem em nossas vidas, nos sentimos belas e poderosas em alguns momentos, que, como tudo, passam. Só depois que fazem parte definitivamente do nosso cotidiano é que nos sentimos completas e então nos damos conta de que nos tornaremos imprescindíveis para o resto de suas vidas, mesmo que eles ainda não saibam, os filhos...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Crescente

Ao cair da tarde, 
em pleno fim de sábado, ei-la, 
preenchendo-se no céu de azul bebê:
lua bela... 
Lua tão singela...
Branca, azul, verde e amarela:
Lua brasileira!
Lua nordestina crescendo à minha janela.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Infância

(foto: Yvette Maria)



O que mais encanta na infância é a capacidade que a criança tem de sobrepujar o sofrimento com a primeira oportunidade lúdica que a faça esquecer da própria história...
Apesar da miséria que reina à sua volta, e dentro do seu próprio lar, muitas vezes, a menina grita destemida para a repórter, que circula ali bem próximo com uma máquina nas mãos, e aguarda expectante com os seus irmãos:

- Dona Maria, tira uma foto de nós!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Presente!

Eu poderia dizer que foi efeito do carnaval, mas estaria sendo injusta. A “festa da carne” não tem muito a ver com isso, embora o feriado prolongado tenha me distanciado por quatro dias do universo virtual.

O fato é que me permiti mesmo ao desligamento total enquanto estive visitando Natal com as minhas filhas, irmãs, sobrinha e cunhado neste carnaval. Quando voltei, na noite da segunda-feira, após dez horas de viagem de ônibus varando a madrugada, estava enjoada demais para escrever alguma coisa nesta página que parecesse interessante.

Passei o dia vagando pela casa, tentando voltar ao normal a tempo de sair novamente (mais uma noite insone); só que, dessa vez, para fazer a cobertura jornalística do carnaval no litoral norte alagoano. A companhia dos colegas Eduardo Almeida e Seu Osmário ajudaram bastante para o meu refazimento naquele dia, diga-se de passagem...

Na quarta à tarde, tive tempo suficiente para escrever alguma coisa, mas não consegui tirar os olhos do meu-livro-de-carnaval-2011 (A Resposta - Kathryn Stockett) e acabei protelando o meu retorno ao blog.

Eu sou assim. Quando tenho um bom livro nas mãos, uma tarde/noite pela frente e o silêncio aconchegante da minha casa, não chego sequer a ligar a TV. Aliás, TV não é mesmo o meu forte quando estou sozinha.

É que eu voltei e as meninas permaneceram mais dois dias com as minhas irmãs, então, ficar “solteira” foi inevitável. E aproveitar o tempo, às vezes fazendo “nada”, é quase uma obrigação nesses momentos, além de um excelente exercício. Afinal, o tempo é tão corrido que acabamos perdendo o hábito de gastar algumas horas conosco mesmo...

E agora estou aqui – já com as meninas de volta –, deitada na cama com o netbook à minha frente, alinhavando essas breves retalhos de memória para cobrir o espaço que ficou vazio na última semana, além de oferecer aos meus leitores mais fiéis (uma meia dúzia, com sorte, eu suponho) algum novo Retrato Falado – pequenos fragmentos da minha vida (fotogramas escritos) que formam uma imagem minha.

Para fazê-los esquecer um pouco dos seus problemas, talvez...

Mas talvez seja mais que isso! Talvez seja essa necessidade de escrever que eu tenho; essa comichão que se move dentro de mim, feito lava fumegante prestes a explodir, pedindo que eu compartilhe momentos, ou conte histórias, que possam suscitar alegria, reflexão ou lágrimas aos meus leitores.

Essa coisa irresistível, que me faz abandonar por um instante qualquer compromisso mais urgente para desatar os fios da minha vida em breves linhas de poética escrita, que serão perscrutadas como num livro, e depositar nas suas mãos pleno julgamento.

Se sou boa ou se sou má, se louca ou sã, és tu quem vai decidir.

A única coisa de que tenho certeza, neste momento, é de que sim, sou eu, que mais uma vez se apresenta e se entrega: estou aqui.

domingo, 28 de novembro de 2010

Autoretrato

Tarde da noite,
o palhaço descansa os seus malabares sobre o fio tênue
que lhe serve de corda bamba durante o dia,
e dorme por alguns breves instantes…
Porque logo é hora de se erguer de novo
e continuar o espetáculo da vida,
caminhando na corda bamba com seus malabares;
e seguir no seu arrasta-os-pés de sempre;
e-senta-e-levanta-e-joga-pro-alto-e-começa-de-novo-e-vai,
até o “até mais!”.

@inspirada em Paul McCartney cantando “Life Goes On”.

sábado, 5 de setembro de 2009

Réstias

(Foto: Yvette Moura)
Chegou quando tudo era outono e calma na vida daquela mulher. Olhou o seu silêncio, pegou a sua mão e acendeu a luz do dia com seu belo sorriso.
Cúmplice, a lua se encheu de alegria e ganhou o espaço, vestida de branco, pra comemorar.
Mas o amor, às vezes, assusta e faz gelar a espinha de quem não está preparado para ser feliz...
Doce ilusão! Quando pensava vislumbrar o arco-íris, o céu se desfez em lágrimas de mulher.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Companhia...

(textura sobre foto de Yvette Moura)

Divido a cama com os livros,
que me distraem à noite
e me enriquecem a alma.
Folheá-los antes de dormir,
sentir o cheiro e a textura deles
é uma forma de garantir bons sonhos...
Nas horas vazias dessa caminhada solitária,
são eles que ocupam o lado vazio do leito
e desviam o pensamento de sugestões infelizes.
Como diria o sábio, se tenho um livro nas mãos,
adeus solidão!

domingo, 12 de julho de 2009

Clarice

Ela dava voltas e voltas feito um labirinto, mas, como flechas certeiras de experiente arqueiro, as suas palavras atingiam quase sempre o tão sonhado alvo da ambição do escritor: o coração de quem o lê...

domingo, 19 de abril de 2009

Vaga(a)lume

Enquanto acendes o teu brilho no mundo eu sigo o meu ofício diário de me encontrar comigo mesma, abrindo caminhos ermos na escuridão.

Enquanto acendes com teu brilho o azul-céu dos poetas, eu ilumino a mim mesma, varrendo o lodo-chão que piso para que os deslizes humanos um dia se desvaneçam, inclusive os meus...

Enquanto escutas palmas crescentes em derredor de ti, nascidas do teu público particular, eu, ouvido treinado, ouço apenas as batidas de um coração: aquele que se enleva a Deus em prece, rogando ser digna, um dia, do juízo que se cria em torno de si.

Feito vaga-lume, sou essa pequenina chama tremulante que ora se acende ora se apaga, iluminando, nesse movimento, a noite de quem caminha comigo.

Como poeta urbano e andarilho que és, brilhas em plena luz do dia, enquanto que eu – quem diria! – alumio, a cada breve intervalo, as enormes vagas de escuridão e sombra que ainda persistem dentro de mim.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O poeta

Trago em mim todos os pecados capitais: a gula, a avareza, a inveja, a ira, a soberba, a luxúria, a preguiça... Mas também trago o antídoto contra todos os males: a poesia.

sábado, 11 de outubro de 2008

Vê, estão brotando as flores!

Segundo Léon Denis, “o Espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, agita-se no animal e desperta no homem”.

Primeiro, eram dois talos simples: longos, mas secos, como braços inúteis. Eu poderia tê-los cortado desde o princípio, deixando apenas a raiz, já que há muito lhe caiu a folhagem. Mas algo me dizia que “aquilo”, aparentemente desnecessário, deveria ter alguma função...

Pois não é que há uma semana apareceram botões ao longo de todo o talo? E hoje, agora a pouco, não é que a Maya me chama, toda alegre, para ver as orquídeas que brotaram?

Uma, duas, quatro, oito, dez... Dozes botões em flor! Lilases nas pétalas e um pouco mais escuras no entremeio escondido por seus grandes lábios. Doze mocinhas floridas, acordando para o mundo dos mortais...

Quanto tempo ficarão por aqui? Qual a duração da vida de uma flor? Quais os seus desejos mais secretos? O que sonham, o que pensam essas meninas? Quais os segredos que elas trazem consigo? Será que sonha uma flor???

Segundo Léon Denis, “o Espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, agita-se no animal e desperta no homem”. Então...

Que sejam bem vindas essas meninas, recém libertas da obscuridade de sua condição espiritual! Que a breve existência delas seja longa e feliz, enquanto durar. E que os seus sonhos sejam intensos, multicoloridos, alegres e primaveris!

sábado, 27 de setembro de 2008

"Amor"

Não tinha olhos baços: eram lúcidos! Não tinha passos vacilantes ou indecisos, mas firmes e determinados. A voz não era rouca ou dissonante. Falava com entusiasmo e suas palavras vibravam para fora da boca como se fossem notas musicais. Seus gestos não eram aleatórios, mas precisos, como se fossem previamente calculados. Nada do que dizia tinha o intuito de magoar, pelo contrário! Mesmo que não tivesse a intenção, suas palavras e seus gestos, os conselhos e as orientações que dava tinham sempre um efeito calmante e incentivador sobre quem o procurasse. E mesmo os que não logravam chegar até ele, bastava que povoassem a mente com o seu semblante para se sentirem envolvidos pela doçura inesquecível do seu olhar e se sentirem, de imediato, compreendidos, confortados, fortalecidos e profundamente amados. Jamais se apresentara às pessoas: era descoberto. Não prometia nada na Terra nem representava nela qualquer entidade ou instituição, mas inspirava confiança e credibilidade, e espalhava sonhos de futuro em cada coração. Jamais falava sobre si com a intenção de se vangloriar ou conseguir privilégios. Nunca se soube ao certo de onde vinha ou para onde ia: estava a caminho...
Ninguém nunca soube o seu verdadeiro nome, mas todos o chamavam "Amor".

sábado, 5 de julho de 2008

O cantador

Faz três dia que ele me acorda assim: cantando como se estivesse na varanda de sua casa. Um canto suave, mas convidativo, como se dissesse mesmo que já é hora de acordar e, depois de tê-lo feito, começar o dia com otimismo e entusiasmo.

Aceito a provocação: levanto e vou à janela, olhando em derredor à procura de sua casa.

Moro em uma área toda residencial: um rodeamento de casas e edifícios com uma pracinha bem no centro, que tem árvores, jardins e sombras, onde as crianças brincam no balanço e os adultos acorrem à banca para comprar o jornal. A essa hora, também já há táxis parados nos seus arredores, bem no ponto em que a área verde é cortada por uma transversal.

Olho uma, duas, três vezes, aguço os meus ouvidos, dou uma esticada nos olhos, mas nada. Não consigo detectar o lugar exato em que se encontra o meu amigo cantador. Olho para as árvores, os fios que levam energia às residências, os bancos da praça, o chão de paralelepípedos, o telhado da casa vizinha (uma espécie de sobrevivente em meio a tantos espigões), e nem sinal dele.

Mas quando viro às costas o seu canto ressurge, sonoro e claro, como se brincasse comigo de esconde-esconde.

Cúmplice, bem humorada, aceito, então o jogo infantil e volto para a minha rede, achando graça e tentando imaginar em que galho pode estar escondido o meu alegre amigo, o pássaro cantador.

terça-feira, 11 de março de 2008

Fidelidade

Todas as noites ele deita de frente para mim e fica em estado de vigília – um olho aberto, outro fechado. À soleira da porta, tem um sono muito leve e está sempre atento a tudo que acontece comigo. Se me levanto no meio da noite, ele me acompanha com os olhos; se vou a algum lugar, logo escuto seus passos atrás dos meus; se faço algum movimento diferente, ele me observa silencioso e atento. Conviver com ele me fez aprender muito sobre a fidelidade...
Não há como negar: o meu cachorro é a criatura mais fiel que eu já conheci!
@para Ping...

domingo, 27 de janeiro de 2008

"Enchamosa"

Acostumada a andar sempre muito colorida, cheia de penduricalhos e “balangandans” na roupa, no colo, nas orelhas, nos pulsos, nos dedos, nos cabelos... Além do inconfundível batom vermelho, que deixa sua marca em todas as bochechas que beija, chamou-me a atenção a Liliu, outro dia, ao abrir, cuidadosamente, uma bolsinha de mão, preta, básica, completamente destoante do seu vestuário habitual. Com gestos suaves, mas precisos, foi abrindo o fecho devagar, distraidamente, enquanto que eu, ao lado, observava atentamente, curiosa para saber o que ia sair de dentro daquela peça tão comum. De repente, não mais do que de repente, um chaveiro comprido, feito com bolas e fitas vermelhos, parecendo uma lagarta-de-fogo, sai de dentro da bolsa de minha amiga.
- Ah, sim – falei, soltando uma gostosa gargalhada –, eis aí a mulher “enchamosa” de sempre!
Aos que pensam que Liliu ficou chateada com o meu comentário, usando o adjetivo que lhe foi dado pelo próprio filho, enganam-se redondamente. Minha amiga sorriu escancarando todos os dentes e me contou um segredinho: - Quando vou sair de casa pergunto sempre ao meu filho como estou, dando uma voltinha. Ele me olha atentamente e diz: “Espera aí, acho que está faltando um pisca-pisca!”
@para Liliu, é claro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Deserto I

- Há um vago imenso em minha alma!
Disse a mulher jovem, bela e rica. E eu vi o deserto se abrir em seus olhos, rasos d’água...
Então repeti para ela as palavras que escutei de um velho mestre, anos atrás:
- “O ser solidário jamais será solitário!”
A mulher baixou os olhos, sorriu com o canto da boca e partiu ainda mais triste...
Percebi, com compaixão, que ela ainda não havia despertado para a mágica da auto-doação. Por enquanto, tudo o que conhecia era o “receber”.

domingo, 13 de janeiro de 2008

A face pequena da rebeldia

Caminhando pela orla da Pajuçara, voltei a atenção para uma voz feminina que gritava num misto de autoridade e doçura:
- Vem, Cíntia!
Chamava a mulher, enquanto guardava as cadeiras e o restante do material de seu churrasquinho de praia.
- Chega, Cíntia!
Insistia a senhora, olhando por cima dos ombros e fingindo não adular a neta que se afastara de si, alguns poucos metros, por puro arroubo de rebeldia.
Curiosa, procurei com os olhos a portadora daquele nome tão requisitado e, para minha surpresa, dei com uma menina de três para quatro anos de idade, com cachos dourados muito bem amarrados por um elástico na altura da nuca.
Virando a cabeça para o outro lado, nariz empinado, Cíntia fazia muxoxos com o canto da boca, enquanto voltava para junto da avó, meio a contragosto, resmungando palavras e gestos incompreensíveis...
Achei tanta graça naquilo que me juntei aos apelos da avó, gritando num tom mais doce ainda: - Vem, Cíntia, vem! Chega pra junto de tua vó.