terça-feira, 9 de outubro de 2007

O paraíso e o sonho

Para ela, o paraíso poderia ser algo bem pequeno, que ocupasse pouco espaço, não importando que parecesse insignificante demais para os outros. Mas era imprescindível que tivesse o exato tamanho dos seus anseios, a dimensão das suas necessidades. Importava, sim, que comportasse o sonho mais singelo de qualquer ser humano: ser feliz.

Para ele, cuja idéia de Éden era bem maior do que o que seus braços podiam abarcar, deixar aquela casa (espaçosa, bem arquitetada, construída há quinhentos metros do mar) era uma verdadeira sandice, um capricho de uma criatura viciada em civilização, completamente desconectada com o silêncio e a proximidade da natureza.

Para ela, a casa era o exílio: uma prisão imposta pelas circunstâncias. Viver ali era a infeliz conseqüência de um ato impensado que cometera movida apenas pelos apelos do coração. Apaixonada, vendera o único bem que tinha para comprar um terreno na praia e construir, com o seu marido, uma casa – o sonho dele – no litoral norte, a uns bons quilômetros dos burburinhos da cidade.

Como se a vida fosse algo previsível, o casal apostou todas as fichas naquela construção. Acreditavam estar edificando ali o lar definitivo e a segurança que sonhavam para viver a maturidade. Mas se esqueceram que o amor também se constrói diariamente sobre o instável terreno do coração humano.

Não durou muito e os problemas (que não eram novos) começaram a aparecer: ele e a velha dificuldade de dividir, o velho materialismo; ela e o temperamento explosivo, também já conhecido...

Nem a casa nem os filhos, nem mesmo a paixão, que parecia ainda existir, conseguiram evitar o triste desfecho. Desfez-se o sonho e ficou a dura realidade: ela, as crianças e a casa.

Sentindo-se só e insegura naquele local, desejava ardentemente encontrar um novo lugar para morar. Queria ter uma vida melhor, arranjar um emprego e dar uma guinada em sua vida. Desejava o marido de volta também, mas nem um nem outro se permitia ceder.

Assim, foi tocando a vida do jeito que dava: ela, as crianças e o sonho (dele). Mas ela não desistia da possibilidade de realizar o seu maior desejo: voltar para a civilização. “Seria o paraíso!”, dizia-me suspirando – olhos estendidos para o Alto.

Um dia, tão logo entendeu que aquele exílio já havia levado o tempo necessário, minha amiga deu um jeito de trocar em um apartamento a tal casa indesejada. Era bem pequeno, é verdade. Na derradeira praia da cidade, mas lhe trazia de volta à civilização. Estava feliz, então. De volta às caminhadas no calçadão, ao convívio dos amigos; de volta, vez ou outra, aos lugares da moda também...

O lugar era, de fato, miúdo, mas aconchegante. Criativa, tratou de decorá-lo com bastante capricho, pois. Cheirava a novos tempos e a amigos reunidos. Trazia promessas de dias felizes e alegria plena. Trazia a segurança e o equilíbrio que estavam faltando. E ela mal conseguia fechar os olhos para dormir com medo de acordar e ver que tudo não passava de um sonho.

Aquele espaço exíguo era o fim do exílio; a entrada triunfal nos jardins do Éden. E não era preciso que verbalizasse o que estava sentindo porque estava escrito em cada canto do novo lar. Cada objeto ali disposto, o seu semblante jovial e luminoso, a alegria das crianças (felizes com o novo humor da mãe), tudo passava a mesma mensagem. Como também o cheiro de café-de-casa-de-família que perfumava o ar nos finais de tarde...

“A felicidade – disse a ela quando a visitei – é um sentimento enorme que cabe em espaços bem pequenos”.

De fato! Aquele pequeno espaço delimitado tinha, para ela, o tamanho exato do paraíso. E foi milimetricamente planejado para comportar o maior dos seus sonhos: a felicidade.

@para Nieta.

3 comentários:

Anônimo disse...

Cronica linda,que fico com olhos cheios de lágrimas até hoje!!!
Pode passar todo tempo do mundo, só que vivi isso.
Parabens meu anjo por mas um grande dom que nosso criador te DEU.
Te amo de coração.

Maria Moura. disse...

um beijo, querida.
que Deus continue a te abençoar sempre!
adorei tua visita.
volta mais vezes!

Marli disse...

Minha amiga

Suas palavras traduzem tudo que sinto enquanto espero vender minha casa pra começar a escrever a estória do resto de minha vida.
Amo a casa, por estar carregada de boas lembranças, mas entendo que é hora de deixá-la e construir meu éden em outro espaço.
Obrigada por iluminar meu dia!
bjos