quarta-feira, 30 de abril de 2008

A voz, a violência e a missão dos pais

Onde estão as canções de ninar, o amor incondicional e a abençoada missão de educar?


Deitada em minha rede, nesta manhã tranqüila de outono, uma voz feminina chega aos meus ouvidos enquanto faço a minha leitura matinal. A despeito dos sons metálicos de uma construção próxima e do vaivém de carros, que desfilam barulhentos pelas vias que cortam o quarteirão, a voz alcança, vez por outra, os meus ouvidos, trazida pelo vento.

A mulher, que pode ser a mãe, a babá, uma tia, cantarola uma canção de ninar e eu, tocada em minha sensibilidade materna – e tendo a voz ativado o compartimento que guarda as minhas lembranças mais caras –, imagino que a mulher esteja embalando o seu bebê em uma cadeira de balanço, como fazia Ana comigo, minha irmã e madrinha, nas noites enluaradas de Canhotinho.

Ou talvez se balancem na rede, quem sabe, ela e a criancinha, que acompanha a voz doce e afinada com extrema confiança, abrindo e fechando os olhinhos sonolentos, como faziam as minhas filhas quando eu as ninava para dormir.

Seja como for, essa voz me remete à lembrança mais doce que se pode ter da infância, como o colo de alguém muito querido ou o aconchego e o carinho que recebemos nos nossos primeiros anos – tão importantes para a formação de um adulto maduro, feliz e amoroso.

Infelizmente são poucos os que têm uma infância livre de qualquer violência. Afinal, afora a numerosa soma de filhos que caracterizam as famílias do passado, as crianças só começaram a ser, de alguma forma, protegidas contra os maus-tratos domésticos – largamente praticados em todas as classes sociais até hoje – há pouco mais de cem anos, quando surgiram as sociedades protetoras da infância na Europa (bem depois da Sociedade Protetora dos Animais) e depois de Freud, quando se buscou compreender o desenvolvimento psicológico das crianças. Antes disso, a violência contra o menor fazia parte da “educação doméstica...”.

Diante dos últimos e freqüentes acontecimentos é preciso tocar novamente nessa tecla para aproveitar um momento tão pródigo quanto o que está vivendo a sociedade brasileira em relação à violência doméstica, cuja discussão foi reacendida e está sendo escancarada pela mídia com o assassinato da pequena Isabella.

Imagino que você também não agüente mais ouvir sobre esse assunto, amigo leitor, embora todos aguardemos, até com certa ansiedade, que a Justiça condene logo os culpados pelo crime. Creio, no entanto, que temas como este precisam ser discutidos à exaustão pela sociedade civil e pelas autoridades competentes para que sejam definitivamente eliminados em nosso País.

Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP), entre 96 e 2007, diagnosticou a existência de 159.754 casos de violência doméstica, embora o percentual de denúncias seja de apenas dez por cento dos casos. Já no Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (Sipia), para onde são enviadas as denúncias dos Conselhos Tutelares, o número de casos de violência contra a criança, de 99 até hoje, é bem maior: são 186.415 casos.

Com o Disque 100, criado em 2003, e a garantia do anonimato, as denúncias têm crescido sensivelmente, passando de 12 por dia, no primeiro ano, para 69, em 2007, e, até março deste ano, o serviço já atingiu a média de 93 denúncias diárias. Apesar disso, os especialistas alegam que a sociedade ainda é muito tolerante com relação à violência doméstica, o que contribui bastante para que o “futuro do nosso País” continue sendo aviltado dentro do próprio lar – lugar que deveria, ao contrário, acolhê-lo e protegê-lo.

Os especialistas também afirmam que a maioria dos casos de crianças desaparecidas tem relação com a violência doméstica e eu, tocada pela voz que me chega do prédio ao lado, me pergunto: - Onde estão as canções de ninar, o amor incondicional dos pais e a abençoada missão de educar?

2 comentários:

Sandra Helena disse...

Mas eu já gosto do texto da "coisinha fotográfica"! Mas,por que não noites enluaradas do Sertão pernambucano? Você tinha que falar no Conhoto Pequeno, não é?!!!!
brincadeirinha...
bjks
S.

Maria Moura. disse...

SSS!!!

Que alegria saber que tu estás entre a meia dúzia de leitores que movimentam esta "homilde" página.

Agora...

A singela alcunha que me deste não deveria, ao menos, ser escrita com iniciais maiúsculas? Hein? Hein? Hein?

Quanto às noites de Canhotinho, como diz o poeta, "a gente precisa ver o luar".

Além do mais, muitos já cantaram o luar do Sertão, mas cantar o de Canhotinho é um privilégio meu.

hehehehe ;}}

Um beijo, amore.

E volte mais vezes, viu?