quarta-feira, 20 de maio de 2009

Arrumar a casa...

Uma hora é o torrão seco, esturricado, magoando ao menor movimento as rachaduras dos pés. Faminto, cansado, vendo morrerem os filhos e os animais, o homem dirige aos céus os seus olhos súplices, pedindo água: para molhar a terra, alimentar o gado, irrigar a plantação e lhe trazer o pão-de-cada-dia, que há de renovar-lhe as forças e as esperanças.

Outra hora é a água que não para de cair do céu. Nuvens pesadas afastam para longe - em estrondosos trovões e perigosas descargas elétricas - qualquer possibilidade de trégua. São noites angustiosas, sonos temerários, assombrados pelos silvos da morte, que ronda as encostas, as grotas, as populações ribeirinhas, quem mora à beira das lagoas ou ao pé das ribanceiras. A lama invade as casas e a doença se alastra. Assustado, o homem implora que o sol volte pra secar tudo...

Num canto é o vento que, soprando em aspiral, movimenta grandes massas de ar, com temperaturas conflitantes, e cria os ciclones, os tornados, os tufões, os vendavais. Tanto um quanto os outros arrastam tudo o que veem pela frente e colocam a integridade física do homem em grande risco. Também aí ele clama por socorro.

Noutro canto é o frio intenso e a neve excessiva, que tanto resseca quanto queima a carne humana, com a mesma intensidade que o sol do sertão, paradoxalmente. Também há os que morrem de frio entre nós! Seja pelas geleiras do coração dos indiferentes ou pelo enfrentamento com a natureza, o homem, derrotado, pede à justiça divina uma trégua...

- Piedade, Senhor! Rogam ao Alto as criaturas exiladas neste vale de lágrimas.

Mas o que nós, seres humanos, não queremos enxergar de jeito nenhum é que, até aqui, temos sido o nosso próprio algoz, extinguindo por puro egoísmo a nossa única fonte de vida. E a natureza - objeto da nossa desmedida ambição - está apenas respondendo aos incontáveis agravos que tem recebido em nome do progresso. Como um bicho acuado, ferido de morte pelas nossas mãos, a Terra geme, se contorce, convulsiona e estertora sob as nossas vistas.

A água que desperdiçamos; as toneladas de lixo que jogamos diariamente sobre a terra, nas profundezas do oceano e no leito dos rios; o desmatamento; a caça predatória; as moradas irregulares que construímos - fazendo crescerem as cidades de forma desordenada - são como armas que apontamos para a própria cabeça, num joguinho inconsequente de roleta russa.

Que exemplo estamos dando aos nossos filhos e netos? Que futuro estamos construindo para quem tanto amamos? Que medidas estamos tomando para preservá-los da “inevitável” carência de água e a consequente escassez de alimentos?

Como quem varre o lixo pra debaixo do tapete, estamos deixando para o amanhã a herança maldita da nossa incúria e da nossa ignorância. Em nome de um futuro “melhor” estamos criando problemas ambientais graves e de difícil solução. Buscamos o avanço, mas não queremos nos comprometer com o aprimoramento moral que o verdadeiro progresso exige.

Até quando vamos deixar para amanhã o que nos cabe fazer hoje? Até quando relegaremos ao vizinho as ações que devem ser feitas por nós mesmos? Até quando jogaremos à providência divina a solução dos problemas criados pela nossa imprevidência? Quantas catástrofes, quantas mortes ainda precisarão acontecer até que façamos as mudanças necessárias? Até quando vamos fechar os olhos para os alertas da natureza?

Para adotarmos uma cultura de profilaxia, ao invés de recorrer às medidas de emergência, cada um precisa fazer a sua parte. Como diz o benfeitor espiritual de André Luís no livro Os Mensageiros (psicografia de Chico Xavier), “em tudo há uma ciência de começar”. Cada um no que lhe cabe, comecemos, então, a cuidar da “nossa casa” antes que seja tarde!

2 comentários:

Paulinha Felix disse...

Oi, Yvette!! Que texto forte e bonito!

Vou visitar mais vezes =)

Um beijo!

Maria Moura. disse...

valeu, Paulinha!
vc é super benvinda.
bjo grande.