quarta-feira, 13 de maio de 2009

As gotas de orvalho e a fábula da lagartinha perseverante

O dia começou normal, com Maya me chamando para levá-las à aula enquanto Jade escovava os dentes após o desjejum. Pegamos Monique no final da rua e seguimos rumo à escola, como de costume.

Retornando à casa, Ping já me aguardava para o passeio diário em volta da pracinha. Descemos as escadas e já estávamos saindo quando fomos surpreendidos por uma chuvinha fina, quase imperceptível, que começou a cair.

É só uma nuvem! Pensei. Aguardamos um pouco e nada. Então achei melhor retornar e tomar o meu café da manhã, até que a chuva (que havia engrossado consideravelmente) cedesse lugar ao sol.

No silêncio harmonioso do lar, sentei-me para comer enquanto o cachorrinho esperava pacientemente, esparramado ao pé da cadeira. Ao término, olhei pela janela e vi que o sol já havia dado o ar de sua graça, então chamei Ping e, finalmente, fomos ao passeio.

O céu aberto nos garantia que, sem sombra de dúvidas, o sol não iria mais se ausentar naquela manhã. Ping estava felicíssimo! E, tanto, que passou a lamber as gotículas de chuva que ainda se equilibravam nos talos longilíneos da grama da jardineira, que protege a placa do prédio comercial da esquina. Uma coisa esquisitíssima, mas muito engraçada e, suponho, bastante prazerosa para ele.

Enquanto aguardava o cão terminar a sua brincadeira, eu observei, a poucos centímetros de mim e um pouco acima da minha cabeça, uma pequena lagarta cor-de-carne-de-gente tentando se equilibrar em um finíssimo fio de seda ou de alguma substância qualquer preparada por ela mesma, que pendia do alto do refletor da tal placa.

Num esforço hercúleo, o bichinho se contorcia todo na tentativa de escalar os cerca de 1.60 m (ou pouco menos que isso) que distavam entre ele e o refletor.

Achando graça naquela curiosa, mas inútil empreitada, eu puxei Ping para seguirmos adiante, pois o passeio estava apenas começando. Mas, alheio ao sol que me queimava a pele ou exatamente por causa da sua intensidade, o meu companheirinho continuou sorvendo as gotas de orvalho que encontrava pela frente.

Na estreita área verde que margeia o prédio da esquina seguinte, o meu olhar se voltou para outra cena imperceptível aos demais. Uma minúscula borboleta marrom-alaranjada pousava delicadamente sobre uma dessas flores singelas que nascem no meio do mato. Asas abertas, quase paradas no ar, vivendo o estágio mais evoluído de uma lagarta, a pequena borboleta sorvia, absorta, o néctar da florzinha amarela. Quando se satisfez, levantou voo e partiu, toda serelepe, sem se incomodar com a nossa presença.

Refletindo sobre a beleza infinita que se estende, também, entre as diminutas criaturas da natureza, dei uma volta na praça e retornei ao prédio, puxando o cachorrinho pela coleira. Mas não antes de passar novamente pela placa do prediozinho contíguo ao meu para olhar, mais uma vez, o bambolear improfícuo da lagartinha sonhadora.

Para minha surpresa, o fio de seda não estava mais no local e a lagarta também não. Alguém bateu sem querer na pobrezinha, pensei sensibilizada, procurando-a pelo chão. Mas, ao fitar a caixa do refletor - muito acima da minha cabeça - percebi que lá estava a lagartinha cor-de-carne-de-gente, deslizando vitoriosa sobre o solo sintético da luminária.

- Que danadinha! Quase gritei de alegria, impressionada com a sua conquista. E voltei para casa me lembrando de um velho ditado que mamãe repetia quando queria ensinar aos filhos o poder da perseverança.

Diante do exemplo daquela lagartinha, que desejou ganhar as alturas antes mesmo de se tornar borboleta, eu não tive outra saída a não ser concordar com mamãe: devagar se vai ao longe! Afinal, o que é o impossível quando os esforços são grandes e o sonho de “chegar lá” é ainda maior?

2 comentários:

Daniel Japiassú disse...

Esse pequeno exemplo nos mostra como é importante a paciência em todos os nossos trabalhos!

Maria Moura. disse...

é verdade, Daniel.
a paciência e a perseverança são essenciais às grandes "construções".

obrigada pela visita!