quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pra recomeçar...

(foto: Yvette Moura)

A noite estava apenas começando quando eu me sentei à beira-mar e me despedi de novembro, pedindo-lhe mentalmente que levasse o passado consigo. As brincadeiras de antes, os sonhos infantis, as palavras ditas sem muito compromisso, os castelos que ergui na areia, os planos que teci em vão... Tudo ficaria para trás, como uma página virada.

Céu estrelado, um rasgo de luz varria o oceano, feito véu de noiva – a lua quase prenhe –, enquanto a brisa marinha brincava com os fios do meu cabelo, cada vez mais longo. Naquele momento – em que me desapegava de tudo o que vivi para que todas as dores, todas as saudades, todas as ausências pudessem ganhar a escuridão do esquecimento e se acomodar entre as folhas do tempo –, eu olhava as estrelas dispostas no espaço e sorria: - Deus, está tudo certo!

Olhos marejados de um agradecimento sem fim, tudo era magia também naquela despedida. As estrelas, que há muito se apagaram, mas permanecem vivas aos nossos olhos, segredavam aos meus ouvidos que a vida é mesmo assim.

- Não se pode ter tudo! – falavam baixinho, explicando que, como as suas luzes, as lembranças ainda permaneceriam ali por algum tempo, mas depois iriam se apagar gradativamente, afundando nas camadas do passado até serem esquecidas por completo; suplantadas por novas experiências...

- O que for importante deixa o seu registro! - asseveraram em conjunto, como uma voz luminosa.

Olhei para Órion, Cassiopéia, e lembrei de quando as conheci, no Alto da Sé, em Olinda, muitos anos atrás, guiada pelas mãos de um amor tão mágico quanto as próprias constelações estelares dispostas na abóboda celeste, cheias de mitos e signos, num imenso mosaico astronômico.

- Isso também já passou! – acorreram rapidinho as “meninas”, puxando-me de volta ao presente.

- Observe as ondas do mar! – disse a mais amarela, com seu brilho fosco.
Baixei os olhos e mirei o oceano à minha frente. Quebrando na areia ou dissolvendo-se em espumas fugidias, as ondas se sucediam rapidamente, num movimento dinâmico e contínuo.
- Aprenda com elas! – aconselhou-me a estrela “filósofa”, lembrando que a dinâmica da vida é exatamente assim: nada fica estagnado; tudo avança.

- O segredo da vida – segredou-me a amiguinha – é seguir sempre em frente. O fundamental na vida – citou Flaubert – é conservar a alma nas alturas.

Suas palavras me calaram fundo, levando-me a um mergulho vertiginoso para dentro de mim mesma. Àquela altura, as luzes que acendiam a orla da Jatiúca pareciam os desenhos molhados de uma aquarela; e eu confesso que não sei ao certo qual água borrara a imagem refletida dos prédios, se a dos meus olhos ou a que evaporara das ondas, transformada em maresia...

- Deus, está tudo certo! Repeti mais uma vez enquanto me levantava retomando o passeio ao lado do velho companheiro de quatro patas. No que pensava ele? O que ruminava no íntimo? Perguntei a mim mesma ao flagrar uma névoa aquosa sobre o seu olhar distante. Estaria também se despedindo de novembro e de tudo que ficou para trás? Não sei. Mas estávamos mais silenciosos do que quando chegamos...

Talvez fosse a nostalgia de tudo o que vivemos... Quem sabe, uma pontinha de mágoa pelo não vivido... Seja como for, a ordem era seguir em frente. Como diz Joanna de Ângelis (Amor Imbatível Amor), deixar o passado passar!

Aos poucos, o colorido da Primavera vai dando lugar à intensidade do Verão. Seja pela mudança de ciclo, ou porque se aproxima a virada do ano, a mim me parece bem salutar que se dê uma paradinha para o necessário “balanço”: realizar uma faxina no campo dos sentimentos e das emoções, fazer nova arrumação na casa mental e abrir as portas do coração para as próximas estações que a vida certamente trará. Em outras palavras, fazer uma autoanálise, estabelecer novas metas e avançar.

4 comentários:

Láyra disse...

Hummm, muito bom ler isso em pleno domingo de manhã, depois de uma semana turbulenta! Nada fica estagnado; tudo avança. Isso encoraja ao recomeço de cada dia... Lindas palavras Yvette e linda foto...
Beijos enormes,
Láyra Santa Rosa

Maria Moura. disse...

querida,
que bom saber que também te aventuras a passear por estas paragens em preguiçosas manhãs de domingo. sejas bem-vinda!
aqui, compartilho vivências, aprendizados, palavras, imagens...
enfim,de tudo aqui tem um pouco para iluminar o dia de quem gasta algum tempo lendo as nossas palavras.
volte sempre que quiser.
bjo,
MM.

Elô Baêta disse...

Magnífica leitura. Que saudade enorme dessas palavras suaves e, ao mesmo tempo, sábias e encorajadoras para seguirmos as retas e curvas da vida. Buscar o equilíbrio, arrumar a "malinha emocional" envolta nos mistérios do mar e com a singeleza das estrelas é absolutamente necessário e enriquecedor. Seus textos são alimentos para a alma e para a identificação dos seres sensíveis. Para mim, verdadeiras paisagens onde me identifico por inteiro. Mesmo numa fase onde não posso mais lê-los "quentinhos", saídos do forno terno do coração, são absolutamente essenciais.

Um beijo cheio de paz

Maria Moura. disse...

Namastê!