terça-feira, 19 de janeiro de 2010

À sombra do cajueiro...


(foto: Yvette Moura)



Comunico, a quem interessar possa, que por volta das 23 horas do dia 05 de janeiro deste ano (terça-feira passada), o amigo mais fiel e leal que eu já tive, nesta existência, despediu-se da Terra, inesperadamente.


Após ser libertado do “cárcere privado” em que se transformou o terraço da casa de Ana – onde eu o prendi, naquela tarde, para impedir que se encharcasse na chuva como fizera no dia anterior –, Ping rumou definitivamente para a liberdade: saiu em disparada para o quintal, onde se encontrava Benta – uma simpática cadela Dasch Hund de pouco mais de dois anos, mãe de Pepa e atual eleita do seu coração sonhador.


Escutando insistentes latidos nos fundos da casa – que, no meu entender, não passavam de apelos enamorados do cãozinho apaixonado –, eu acabei adormecendo no sofá da sala, enquanto assistia à televisão. Mas como se estivesse vivendo, de repente, um sonho ruim, acordei com a minha sobrinha me chamando para avisar que Ping estava morto.


Corri imediatamente para o quintal até que avistei, iluminado pelos faróis do carro de Caio, o nosso querido Ping caído no chão de paralelepípedos, com as quatro patinhas estendidas, como se dormisse. Eu me aproximei e o chamei pelo nome, mas nada. Insisti, tocando o seu corpinho ainda quente, e nada. Então, virei-o de lado e vi a sua lingüinha arroxeada, entre os dentes, e um pouco de saliva escorrendo da sua boca.


Pelas evidências, não precisávamos de um veterinário para nos dar um diagnóstico seguro: Ping sofrera um enfarte fulminante. E o corpinho do nosso companheiro de tantas aventuras, e desventuras também, jazia molinho e sem vida...


Jade, com Pepa no colo, abraçou-se com a tia Ana e começou a chorar, enquanto Maya, do terraço, observava a cena estarrecida, sem acreditar no que estava vendo. Acompanhada por Aninha e Caio, enrolei o nosso “veinho” na sua toalha de banho – enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto, como as águas ligeiras de um rio – e fomos para o pomar da casa, próximo ao portão de entrada, onde o meu sobrinho cavou um buraco fundo sob o cajueiro – local em que haviam sido enterrados os outros cachorros que pertenceram à família; entre eles, Pluto, o irmão natural de Ping.


Com o companheiro fiel de exatos onze anos e cinco meses no colo, eu me aproximei das meninas para as despedidas, e cada uma afagou pela última vez o pêlo vasto e macio do nosso poodle, que também recebeu uma última cheiradinha de Pepa, a quem, aliás, aprendeu a respeitar e proteger nos três últimos meses em que conviveram.


Depositei-o na vala, coloquei a sua coleirinha ao lado do corpo inerte e fechamos o buraco, Caio e eu. Sobre o pequeno túmulo, depositamos algumas pedras e um cacho de flores do campo. Mas nada de uma representação caricatural dos enterros humanos: apenas uma homenagem singela àquele que nos dedicou a sua breve existência e os seus melhores anos. A noite foi longa; e a comoção, geral.


No dia seguinte, a ausência de Ping – que seguia os meus passos durante praticamente todo o dia –, era notória e real. À menor lembrança, os nossos olhos ficavam marejados de água. Coincidentemente, era feriado em São Benedito do Sul por causa da tradicional Festa dos Reis – muito concorrida pela redondeza, embora o padroeiro da cidade seja o santo que lhe dá o nome. Mas para mim, o feriado era por conta da morte do meu amigão, num ato de luto e respeito...


Uma semana depois do ocorrido, agora me parece providencial que tudo tenha se dado no Mangue, afinal, foi lá que o nosso “Pimpim” experimentou, inúmeras vezes, o prazer de ser livre. Quanto a mim, não resta dúvidas: conviver com Ping foi reparador, pois jamais poderei dizer que nunca fui amada com total entrega e lealdade. Em troca, plantei uma roseira em sua homenagem, à sombra do cajueiro.

4 comentários:

Anônimo disse...

Mokinha... O que eu posso dizer é que chorei um bocado enquanto lia, e continuo agora. Triste por vocês, pelo Ping e, claro, pela Arieska e pela Âmbar... Lembrei muito dessas duas e senti uma saudade danada. Bjos.

S.

Elisana disse...

Yvette, fiquei sabendo agora da morte de Ping... E estou chorando muito. Choro por suas palavras, pelo Ping e pelo meu Pixote, que tb se foi há alguns anos. Amor incondicional, amor leal, amor eterno... Beijos saudosos!

Elô Baêta disse...

Gaviota, a notícia de que o Ping se foi doeu muito em mim. Lágrimas de saudade, amenizadas pelo conforto daquele último passeio meu e dele, só nós dois, na manhã daquele domingo. Ele, como o Spike, são os meus cãozinhos queridos, sempre.

Beijos

Maria Moura. disse...

queridas...
histórias diferentes, sentimentos tão parecidos... o que dizer?!
a saudade de amores tão intensos, verdadeiros e leais, como a amizade dos nossos cachorrinhos, nos aproxima ainda mais.
um beijo imenso em cada uma de vcs!

MM.