quarta-feira, 3 de março de 2010

O mundo é das Marias!

(foto: Yvette Moura)

Ela só queria uma carona. E nós atendemos a sua solicitação, confesso, mais por desencargo de consciência do que por um impulso altruísta, afinal, estávamos tão cansados naquele final de tarde – depois de uma extensa jornada de trabalho – que só pensávamos em chegar em casa.

Mas o seu apelo foi tão despretensioso, e ao mesmo tempo tão convincente, que assentimos, abrindo-lhe a porta do carro como se o fizéssemos para uma velha amiga. E o que poderia ter sido uma viagem enfadonha transformou-se numa experiência rica e divertida. Conversamos, rimos a valer com suas histórias, e acabamos por levar para casa uma verdadeira lição de vida (talvez a mais ancestral das constatações humanas): são as mulheres que dão vida ao mundo.

E é com essa história que eu abrirei este mês simbólico para o gênero feminino, reverenciando, através dela, as inúmeras criaturas, que se imolam anônimas para que os filhos cresçam e se tornem pessoas de bem; mulheres que são a força, o esteio, o exemplo e a inspiração daqueles que conhecem a sua luta silenciosa, preparando o caminho para os que vêm à retaguarda...

Desenrolada, Maria José foi puxando assunto assim que entrou no carro, e aproveitou para se explicar pela investida meio sem cerimônia. Assim como nós, estava cansada: passara o dia sob o sol escaldante e o ônibus que esperava estava demorando muito. Além do mais, ainda tinha uma porção de coisas para resolver quando chegasse a Maceió.

Fora a Barra Nova para fazer cobrança, pois era comerciante. Curiosos, quisemos logo saber o que a moça comercializava. E, sem demonstrar qualquer constrangimento, lá se foi ela desatando o seu rosário de ofertas: - Eu vendo de tudo um pouco. É lençol, roupa da moda, bacia, panela, brinquedo... Tudo ao gosto do freguês! Arrematou orgulhosa.

Sem perder o fôlego, Maria José nos contou sobre a sua luta como vendedora ambulante, que começou comprando alguns produtos aqui mesmo e saiu vendendo de porta em porta. Depois passou a buscar pontos de venda maiores, como as feiras de Caruaru e de Toritama, no Agreste pernambucano. À medida que as vendas foram dando certo, a comerciante foi ampliando o seu campo de ação até chegar à Barra Nova, onde mantém uma boa clientela.

Sem perder o ritmo, a vendedora nos contou sobre como fazia para levar os produtos até aquela localidade: - No carro de mão. São dois homens empurrando, três vezes por semana.

- E eu venho junto para anotar as compras porque o meu marido é analfabeto – ajuntou, divertindo-se com a situação.

Falando assim, ela nem parecia lembrar que, para chegar até a sua clientela, era preciso subir e descer a movimentada ponte Divaldo Suruagy, tanto na ida quanto na volta, além de seguir a pé pela estreita margem, por cerca de 30 km.
Olhar distante, aparentando cansaço, a moça de pouco mais de trinta anos não perdia tempo com reclamações, afinal, os negócios vão “de vento em popa” e é com as suas vendas que ela mantém o lar, cria os dois filhos e está construindo a sua casinha, em um terreno que comprou nos arredores de Marechal Deodoro, com um espaço já reservado para a sua lojinha.

Mas como se também trouxesse os seus badulaques internos, e sentido confiança no pequeno grupo que a escutava com tamanho interesse e simpatia, composto por mais duas Marias, de vez em quando a comerciante desarrolhava o cabedal de desditas que também a acometem. Contou-nos, por exemplo, que quando percebeu que os negócios da mulher estavam dando lucro, o marido deixou o emprego para ajudá-la.

- Maldita hora! – confessou entre risos – Pois o infeliz gasta a metade do ganho com bebida e raparigagem.

Cheia de um entusiasmo indestrutível, no entanto, nem os desgostos do esposo lhe tiram a confiança em si mesma e a alegria de viver. Provocando o nosso riso, afirma:
- Eu já disse a ele: Quando eu me abusar, pego as crianças e fui!

3 comentários:

Láyra disse...

Acho que conheço essa história!!! kkkk
E por incrível que pareça, o seu pensamento no começo foi o mesmo que o meu, acho que é a sintonia das Marias!!!
Estamos formando uma boa dupla dinâmica! kkkk
Beijos enormesss

Maria Moura. disse...

Isso, isso, isso, D. Maria.
rsss
e vamos tomar conta do mundo!!!!
bjos.

MM.

Anônimo disse...

Láyra Maria e Yvette Maria. Oh "dupra" de duas! Quando eu li fiquem pensando quem seria a segunda Maria, e nem lembrei da Maria Cor de Rosa. Saudades de vocês duas. Bjks,
S.