quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Essa nada mole vida

(foto: Yvette Moura)

Está difícil! Ou, melhor dizendo – ao optar por uma maneira politicamente mais correta de me expressar –, não tem sido nada fácil a convivência entre Pepa e Ping desde que a pequena daschund chegou aqui em casa. Nos primeiros dias, o nosso mascote nem conseguia olhar para a novata, com medo de encarar a novidade, que parece ter caído como um raio em sua pacata existência. Todas as vezes que eram obrigados a ficar frente a frente, o cachorro virava a cara para o outro lado ou baixava a cabeça imediatamente, talvez para não obter a confirmação da suspeita que o afligia: - parece que tem outra criatura de quatro patas querendo dividir o espaço que é todinho meu!

Desde então temos vivido essa queda-de-braço: de um lado, Pepa – um bebezinho lindo, de passos vacilantes e olhos pardos, recém-saída dos cueiros, fazendo o reconhecimento da área, que, quanto mais espertinha fica, mais vontade tem de brincar com aquele que, no seu novo ambiente, parece ser o mais igual entre os diferentes; do outro lado, Ping – um poodle meio arisco, um tanto quanto avesso a “certas novidades”, com idade relativa a um senhor de 77 anos, que quer mais é ficar quietinho em seu lugar, mantendo controle sobre tudo o que “lhe pertence” e, principalmente, recebendo o mesmo, e exclusivo, carinho de antes.

A gente tem se desdobrado, é fato, para ajudá-lo a enfrentar esse momento difícil, afinal, se, para o homem, dividir afetos e espaços é um exercício duro e bastante complicado, imagina para um cão de apartamento, cuja vida se resume a dedicar, inteiramente, o seu amor e a sua lealdade aos seus donos e maiores amigos!

Confesso que tive a ilusão de que a cadelinha pudesse rejuvenescer o nosso “veinho” (como carinhosamente é chamado por nós), despertando nele um sentimento protetor, capaz de construir uma ponte de amizade entre as duas raças caninas, como ainda aposta a minha amiga Elô. Esqueci-me, no entanto, de dois detalhes importantes: a diferença de idade entre os dois e a passionalidade do Ping, com comportamento quase humano e cheio de olhares, mungangas e reações de gente.

Para a minha surpresa, o cachorro tem agido de forma ameaçadora e intimidante, rosnando sempre que a cadela se aproxima, tomando todo o leite que é preparado para ela e papando todo o seu pratinho de ração (para filhotes) sempre que estamos distraídas. Durante a noite, por exemplo, Ping fica inquieto enquanto estou brincando com a caçula e, na maioria das vezes, vem deitar-se na frente do meu quarto, na soleira da porta de Jade, para observar, de frente, o que estamos fazendo.


Quando isso acontece, eu sempre o chamo para brincar também, mas ele se faz de rogado ou, simplesmente, vira de lado e sai. Outro dia, chamei-o – assim que saí do banho – para sorver a água que caía pelo ralo, como religiosamente fazia ao longo de todos esses anos. Mas, como Pepa tem se dado a essa prática, ultimamente, depois de ficar arranhando o box até eu sair, ele simplesmente se negou a beber a água, mesmo sendo adulado por mim.

De alguma sorte, eu ainda guardo a esperança de ver esses dois brincando pela casa, como dois amigos. Pelo menos, encontrá-los dividindo o mesmo espaço na madorna da tarde, aquecendo-se mutuamente, numa cumplicidade tão silenciosa quão intensa. Como Luther King, eu agora tenho um sonho libertário em relação a eles, dentre os tantos que cultivo nesse velho coração idealista: sonho com o dia em que verei Pepa e Ping dormitando lado a lado, entregues ao sono justo dos cães de instintos adestrados, no despertar de sentimentos, como bons e velhos companheiros de jornada. Pois sei que a luta que travam, hoje, é mais de aceitação e disputa de afetos do que propriamente territorial ou por questões raciais. E o nosso coração os acolhe com igualdade, num delicioso exercício de amor universal.

2 comentários:

Anônimo disse...

Chama o Dr. Pet, Mokinha!!! Ele resolve. bjus, S.

Maria Moura. disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk...
valeu a dica, amora.
bjooooo!!!!
saudade de tu...